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Abaixo a democracia!

Viva a Comuna!

(texto repassado por Ivo Tonet)

Introdução

Há uma alternativa à democracia que não seja a ditadura? É possível outra forma de organização da sociedade que não seja nem ditadura nem democracia?
Há, sim! Existe sim uma outra organização social que não é nem a democracia nem a ditadura. É a Comuna.

O falso dilema democracia ou ditadura
Ditadura ou democracia, quem sempre domina é a burguesia, são os capitalistas. Ditadura ou democracia, os trabalhadores sempre produzem a riqueza de seus patrões.
Além disso, muitas décadas de democracia demonstram, a todos os que querem ver, que os governos burgueses “não funcionam”. Os ricos ficam cada vez mais ricos, os pobres e as misérias aumentam; a violência não para de crescer; a educação, a saúde, o transporte pioram no mesmo ritmo acelerado em que aumentam os lucros dos capitalistas. As guerras e a destruição do planeta são o resultado necessário de uma sociedade que se organiza ao redor do lucro. A reprodução do capital é a reprodução da miséria e a destruição do planeta.
A democracia, definitivamente, “não funciona”. Tal como a ditadura, também é o império do dinheiro sobre os humanos. Serve apenas para concentrar a riqueza na mão dos capitalistas.
Justificam a democracia dizendo que ela é, dos males, o menor. O pior dos mundos seria uma ditadura. Quando já não é possível justificar a democracia pelas suas virtudes, busca-se justificar a democracia argumentando ser a menos maléfica de duas alternativas ruins!! A que ponto chegou a decadência da burguesia e de sua ideologia!!
Restringir o nosso horizonte à falsa opção ditadura-democracia é uma das ilusões difundidas pela ideologia conservadora. Pois há uma alternativa para além da democracia e da ditadura burguesas: a Comuna.

A Comuna

A Comuna é a forma de os trabalhadores (operários e demais assalariados) exercerem o poder sobre a produção e sobre a organização de serviços necessários à vida.
Isto é a primeira característica importante da Comuna: é um poder dos trabalhadores, e não um poder da burguesia.
A segunda característica importante: não é apenas uma forma de organização política, mas é principalmente uma forma de organização da produção e da distribuição dos frutos do trabalho. Com a Comuna, todos trabalham, quem não trabalha não come. Na Comuna, todos que trabalham decidem – quem não trabalha não participa das decisões.
A terceira característica importante: a Comuna é a forma de organização dos trabalhadores capaz de derrotar os esforços da burguesia para voltar ao poder e restaurar a exploração dos trabalhadores.

Os princípios da Comuna

A Comuna funciona com base na autonomia e na liberdade da organização nos locais de moradia e de trabalho. Os princípios mais gerais são os seguintes:
1) Os trabalhadores se organizam em seus locais de trabalho e de moradia. Decidem, assim organizados, o que é prioritário para suas vidas. Nos locais em que trabalham, decidem como será organizada a produção, como será ordenada a jornada de trabalho, como será ordenado o controle do trabalho de cada indivíduo, como serão obtidos os equipamentos e matérias-primas necessários à produção e como o produzido será distribuído. Nos locais de moradia, decidem o que é prioritário e organizam os serviços públicos (educação, saúde, transporte, lazer, moradia etc.)
2) A Comuna funciona do modo mais democrático possível: cada um vale um voto e a maioria toma as decisões. Nela, todos trabalham. Quem não trabalha não participa das decisões.
3) As decisões que envolvem apenas recursos ou pessoas da Comuna local, decisões que não têm consequências para além da comunidade local, são encaminhadas com total autonomia pela própria comunidade.
4) Decisões cuja implementação requer recursos, materiais, pessoas de outras localidades – ou que podem afetar a vida de mais pessoas do que a comunidade local – são levadas para as Assembleias Comunais (desde as do bairro, da cidade, do Estado, do país e mesmo de todo o planeta). Lá, todos os envolvidos podem discutir o que lhes diz respeito. Tomada uma decisão, determinam-se também os recursos, as pessoas, os materiais etc. que serão destinados a implementar o que foi decidido. Por fim, avaliam-se também os resultados práticos da decisão coletiva.
5) Para as Assembleias Comunais são eleitos representantes das Comunas. Estes representantes recebem o mesmo salário que já recebem na Comuna; seu mandato dura bem pouco tempo, coisa de meses, e a Comuna que os elegeu pode revogar seus mandatos e os substituir por outros representantes, sempre que necessário.
Este é um aspecto fundamental: o representante eleito tem o mesmo salário que já recebia na Comuna, deve prestar contas continuamente à Comuna que o elegeu e esta o pode substituí-lo sempre que queira. E o mandato é curto, medido em meses ou semanas.
6) Tanto a Comuna quanto as Assembleias Comunais levam à prática as decisões que tomarem: nada da separação entre o Judiciário, o Legislativo e o Executivo, como ocorre na democracia e da ditadura burguesas.
A Comuna é a alternativa à ditadura e à democracia burguesas. A Comuna é o poder dos trabalhadores e proletários sobre a vida social, é a forma de os trabalhadores e proletários organizarem o poder para se libertar da opressão.

As primeiras medidas

Sempre que os trabalhadores tomaram o poder foi por uma revolução, e sempre a burguesia e seus aliados sabotaram a produção e o abastecimento e atacaram com todas as forças militares a Comuna.
Isto vai ocorrer também no futuro.
Por isso, a luta contra a burguesia e seus aliados apenas pode ser vitoriosa se as medidas para combater a contrarrevolução forem também as medidas que fortaleçam o controle da produção e da vida social pelo proletariado e seus aliados.
Devido a esta situação, as primeiras providências da Comuna deverão se darem dois campos: no campo da produção e no campo da resistência à contrarrevolução.
No campo da produção, as providências mais urgentes possivelmente serão as seguintes:
1) Cada Comuna deve assumir o controle de todas as unidades produtivas (indústrias, comércio, serviços como educação, saúde, transporte, segurança, coleta de lixo, energia etc.) no seu interior. Em cada unidade produtiva, duas medidas devem ser implementadas o mais rapidamente possível: colocar a trabalhar nas unidades produtivas todos os desempregados, ou que, na Comuna, podem ser rapidamente instruídos para lá trabalharem.
Cada Comuna deve tomar posse e manter sob seu controle todas as reservas de matérias-primas, ferramentas, fontes de energia (postos de gasolina, linhas de transmissão elétricas etc.), alimentos, roupas, remédios etc. Os burgueses e seus aliados, antes proprietários destes bens, serão expropriados sem direto a qualquer compensação. Se quiserem comer e participar dos frutos do trabalho coletivo, deverão trabalhar como todo o mundo.
Graças à própria organização desenvolvida já pela economia burguesa, no primeiro momento se terá uma boa ideia do quanto cada unidade produtiva deverá inicialmente produzir (cada fábrica, cada escola, cada centro de saúde ou hospital, cada supermercado etc.). E, como mais pessoas trabalharão para produzir o mesmo, a jornada de trabalho poderá ser imediatamente reduzida. O importante é reduzir a jornada de trabalho de todos o mais rapidamente que for possível.
O critério para esta redução ficará a cargo da Comuna e de cada unidade produtiva. Por exemplo, uma dada Comuna pode avaliar que é mais importante alongar a licença maternidade e paternidade e, para isso, diminua menos a jornada dos solteiros ou dos pais com crianças maiores etc. A regra geral deverá ser: elevada autonomia da Comuna e dos locais de trabalho e, ainda, a imediata e maior redução possível da jornada de trabalho.
2) Providenciar moradia e alimentação para todos os membros da Comuna. Nenhum dia a mais com pessoas passando fome ou necessidades! As casas e apartamentos desocupados devem ser imediatamente ocupados por aqueles sem teto. E as condições de moradia deverão ser imediatamente melhoradas com a organização de medidas de higiene e limpeza.
3) A Comuna organizará a distribuição de bens de primeira necessidade. O critério deverá ser a contribuição do indivíduo à produção coletiva: retribuição igual para igual trabalho deverá ser o primeiro critério a ser adotado. Contudo, como veremos, apenas o primeiro e provisório critério.
4) Cada Comuna será responsável pela educação de seus membros. Decidirá como e quando ocorrerá a educação, o que será ensinado, como as crianças serão educadas. Os alunos, professores e toda a Comuna decidirão livremente como será a educação. A mesma coisa para os serviços de saúde, coleta de lixo, limpeza das ruas, manutenção das áreas comuns como parques e bosques etc.
Dizíamos acima que as primeiras providências da Comuna deverão estar voltadas a dois campos. O primeiro, que já vimos, é a organização pelo proletariado e seus aliados da produção e da organização dos serviços. O segundo, que veremos agora, é a resistência contra as tentativas burguesas de destruir a Comuna.

A defesa da Comuna

Toda Comuna deve implementar a regra geral de “quem não trabalha não come, quem não participa do trabalho coletivo também não participa dos frutos do trabalho coletivo”. Os burgueses farão de tudo para retomar seu privilégio de viver do trabalho dos outros. Sabotarão a produção, destruirão as reservas de alimentos e produtos de bem de primeira necessidade e empregarão a força para destruir quem se lhes opõe.
Por isso a Comuna deve, desde o primeiro momento:
5) Realizar a mais ampla campanha de ideias para mostrar aos trabalhadores que a Comuna é possível e necessária. Depois de tantos séculos vivendo explorados, mesmo muitos trabalhadores não acreditarão na possibilidade de se libertar da opressão dos patrões através da Comuna. Outros serão comprados pelo ouro da contrarrevolução. E, ainda, haverá os burgueses que lutarão até a morte contra o poder do proletariado e seus aliados. Para ganhar o apoio daqueles que ainda acreditam na democracia burguesa deverão ser feitos todos os esforços possíveis.
Ganha-se a batalha das ideias com a prática da Comuna e com as ideias revolucionárias e libertadoras.
Contudo, contra os ataques armados da burguesia e seus aliados, a única alternativa é também uma resposta armada por parte da Comuna.
Se a burguesia emprega em seus exércitos trabalhadores para defender o seu poder de explorar esses mesmos trabalhadores, a Comuna coloca em campo os trabalhadores em armas, as milícias. Esta é a grande vantagem histórica da Comuna, quando se trata do campo de batalha. Os trabalhadores não possuem qualquer interesse de classe em defender o poder da burguesia e possuem todo interesse histórico em defender a Comuna. Os exércitos revolucionários, por isso têm sido, ao longo da história, muito mais eficientes no combate do que os exércitos burgueses.
As milícias deverão se conduzir militarmente, tendo a clareza de que guerra contra a contrarrevolução é ganha pela destruição do exército burguês — tanto pela vitória das armas, como também pela vitória no campo das ideias. Em todo o confronto, devem-se explorar todas as possibilidades para mostrar aos soldados e trabalhadores que ainda apoiam a burguesia que a Comuna é possível e necessária, pois é a libertação de todos os trabalhadores da opressão do capital.
Para cumprir este objetivo, a Comuna deverá tomar posse das armas ao seu alcance e as distribuí-las à população da forma que for localmente mais eficaz para combater a burguesia e seus aliados. Tomar posse de quartéis, delegacias, lojas de armas, de unidades policiais é uma tarefa a ser cumprida tão logo quanto possível. Deve promover o treino militar indispensável à autodefesa da Comuna. E, apenas em última instância, deve prender e levar a julgamento público os partidários da burguesia e da opressão dos trabalhadores. Mas não deve vacilar contra aqueles que pegarem em armas contra a Comuna.
Esta questão é tão decisiva que merece uma consideração mais detalhada. Trata-se do papel da violência na história.

O papel da violência na história

A violência apresentou-se na história da humanidade em duas situações. A primeira delas ocorreu na sociedade mais primitiva, ordenada pelo trabalho de coleta, quando a carência mais absoluta fazia com que a força física muitas vezes decidisse a quem caberiam os parcos recursos disponíveis. A violência, então, estava a serviço direto da sobrevivência biológica das pessoas.
A segunda situação em que comparece a violência é a sociedade de classes. Nas sociedades de classe os exploradores obrigam, pela violência, os trabalhadores a produzir a riqueza das classes dominantes. E, para exercer esta violência, criaram o Estado. O Estado é o instrumento de aplicação cotidiana da violência sobre os trabalhadores para que continuem a produzir a riqueza que os oprime, a riqueza das classes dominantes.
Na sociedade de classes, a violência não está a serviço da sobrevivência biológica, como nas sociedades primitivas, mas a serviço do enriquecimento das classes dominantes; está voltada primordialmente contra aqueles trabalhadores e revolucionários que se rebelam contra a opressão.
Na sociedade burguesa, esta função do Estado de repressor dos trabalhadores pela violência foi aperfeiçoada ao máximo. A polícia e o exército, o Direito e a burocracia foram aprimorados para serem cada vez mais eficientes na manutenção da exploração dos proletários e trabalhadores.
Por isso, o Estado burguês deve ser rapidamente destruído e substituído pela Comuna.
Com a Comuna, a violência não mais servirá para oprimir os trabalhadores, pois serão os trabalhadores e o proletariado que formarão a milícia armada de cada Comuna. Por isso, a violência terá apenas uma única função: derrotar a contrarrevolução pelas armas e pela reorganização da produção segundo o princípio de que todos devem trabalhar.
Uma vez derrotada a contrarrevolução, com o desaparecimento da burguesia e seus aliados (quer pela derrota militar, quer pelo convencimento ideológico, quer pela transformação de todos em trabalhadores), a milícia também desaparecerá, por não mais ter utilidade. A produção de armamentos deixará de ocorrer, pois não haverá mais guerras nem os conflitos sociais serão resolvidos pelo recurso às armas. Com isto, mais trabalhadores poderão ser deslocados para a produção dos bens de primeira necessidade, e a jornada de trabalho diminuirá ainda mais.
A Comuna será, assim, a última vez na história da humanidade em que a violência aparecerá para resolver um conflito entre os seres humanos. Esta violência é ainda expressão da barbárie da sociedade de classes e é inevitável porque os contrarrevolucionários apelarão às armas contra a Comuna. Mas, superada a sociedade de classes, a violência e, com ela, tanto a milícia da Comuna quanto a produção de armamentos desaparecerão tal como desapareceu, no passado, o machado de bronze.
Este é o papel da violência na história, e esta é a função social da violência na Comuna.
Portanto, as tarefas imediatas e gerais da Comuna possivelmente serão: colocar a vida cotidiana, acima de tudo a produção e a distribuição dos bens, sob o controle imediato da população trabalhadora. Destruir, com isso, o Estado da burguesia, com seu aparato repressivo e destruir a burguesia e seus aliados pelo emprego da força militar, sempre que for imprescindível. Empregar, consciente e eficientemente, a violência apenas para destruir o velho Estado e as velhas classes dominantes. Nas mãos da Comuna, a violência tem uma função específica: defender os proletários e seus aliados da volta da exploração dos trabalhadores pela burguesia.

II Os limites da Comuna

Muitas décadas de história nos ensinaram que a democracia nada mais é que o poder da burguesia sobre a sociedade e, em especial, sobre os trabalhadores; que a democracia é uma ordem social que apenas pode existir pela aplicação da violência sobre a maioria da sociedade.
A Comuna, ao invés, é o poder dos trabalhadores sobre a burguesia e seus aliados. Um poder da maioria sobre a minoria, com a finalidade de superar definitivamente a exploração do homem pelo homem.
Que a Comuna seja uma liberdade muito superior às liberdades democráticas burguesas é uma evidência. Os proletários e seus aliados são a maioria da sociedade. A Comuna exerce o poder, não “em nome” dos trabalhadores, mas pelos próprios trabalhadores. A Comuna consiste nos operários e seus aliados organizados em força política.
Este é o principal mérito histórico da Comuna e também seu principal limite. A Comuna ainda é uma força política, ainda exerce o poder – mesmo o poder violento – sobre a burguesia e seus aliados. Por isso é uma forma ainda limitada de liberdade. E, por ser uma forma limitada de liberdade, deve ser superada por uma forma superior e muito mais ampla de liberdade: o comunismo.
Isto é tão importante, que merece um tratamento mais cuidadoso. A política é, ao lado do papel da violência na história, também uma questão decisiva.

A política

A política é uma relação social que apenas existe nas sociedades de classes. A política tem sempre por conteúdo o poder do Estado: como conquistá-lo e como exercê-lo.
A Comuna também é um poder político. Ao invés de ser o poder da burguesia sobre os trabalhadores, é o poder dos trabalhadores sobre a burguesia. Por ser o poder político da maioria sobre a minoria, é um enorme avanço sobre a democracia burguesa, que não passa do poder político da burguesia sobre a maioria da sociedade, os trabalhadores
Contudo, por ser um poder político, a Comuna é ainda a contraposição à velha sociedade de classes. Emprega a violência para derrotar a contrarrevolução, requer o controle da participação dos indivíduos no trabalho comum e, ainda, requer o controle da distribuição segundo o critério de “a cada um, uma remuneração igual para um trabalho igual”.
Esta necessidade de um controle da Comuna sobre a vida coletiva e a vida dos indivíduos decorre de dois fatos. Politicamente, do fato de que a luta contra a burguesia e seus aliados ainda não terminou. Contudo, mais decisivamente ainda, decorre do fato de que a abundância necessária para que se superem os limites da Comuna ainda não se estabeleceu em todas as esferas da produção e por toda a humanidade.
Estes são os principais limites a serem superados pela Comuna: a permanência da carência em algumas esferas da produção e a permanência do exercício do poder político (ainda que com outro conteúdo de classe).

A abundância e o reino da liberdade

A burguesia deixará, como herança à humanidade, não apenas um planeta destruído e com graves problemas ecológicos, mas ainda uma humanidade em larga medida destruída. Pensemos nos depósitos de lixo, tanto os radiativos quanto os “normais”, no aquecimento do planeta, em situações como a miséria na África, nas periferias das grandes cidades e, ainda, enormes áreas perdulárias, com extremado consumo de energia e de recursos, como a Europa e partes da América do Norte.
Deixará também uma parte ponderável da produção voltada ao desperdício, uma obsolescência planejada, a produção de armas a todo vapor e, ainda, uma malha de distribuição (portos, estradas, aeroportos, estradas de ferro etc.) que serve ao lucro e não aos humanos; que, portanto, terá que ser profundamente alterada para levar os produtos aos locais que a humanidade de fato precisa.
Massas inteiras de população provavelmente se movimentarão dos locais mais pobres aos mais ricos antes que medidas efetivas de desenvolvimento das regiões mais pobres possam ser tomadas, reduzindo ainda mais a jornada de trabalho nos locais mais desenvolvidos, o que é positivo, porém trazendo novos problemas de moradia, energia, serviços básicos etc.
Logo após a revolução, a situação requererá urgentes medidas de alcance planetário e nacional, exigirá um árduo esforço (mas com as jornadas de trabalho sendo sempre reduzidas) para reequilibrar uma situação mundial que será, por ser herança do capitalismo, muito desequilibrada.
Ainda que, no geral, se produza mais do que se necessita, isto ainda não estará estabelecido em todas as localidades e em todos os ramos de produção. Por isso, a regra geral da Comuna ainda será a do Direito burguês de a cada um de acordo com sua colaboração para a riqueza comum.
Esta regra é do Direito burguês porque trata todos os indivíduos como iguais, o que não passa de uma abstração. Os indivíduos são diferentes, possuem necessidades e possibilidades individuais que são distintas, jamais são pessoas iguais. Tratar a todos como iguais, eliminando a distinção de classe, possibilitando com que todos trabalhem e contribuam com a riqueza comum, é um enorme avanço ante ao capitalismo. Contudo, é ainda apenas um enorme avanço, e não um limite que não pode ser ultrapassado.
Este avanço não deve ser subestimado, mas sua verdadeira importância está em preparar uma sociedade na qual o princípio geral será “de cada um de acordo com sua capacidade, para cada um de acordo com sua necessidade”. Isto é, uma sociedade na qual cada indivíduo não será tratado abstratamente como um igual, mas concretamente como o ser humano único, completo, total, que de fato é.
Enquanto não houver a abundância na vida cotidiana de todos os seres humanos, será inevitável um sistema de controle para saber quem trabalhou, onde e por quanto tempo, e qual a parcela que lhe cabe da produção coletiva. Este sistema de controle, já vimos, deverá ser a própria Comuna, e sob a responsabilidade e a autoridade imediata da Comuna; deverá ser o mais racional e equilibrado possível, o mais humano e generoso imaginável. Ainda assim, será um mecanismo de controle que irá requerer que horas de trabalho humano sejam consumidas fora da produção apenas para identificar a qual indivíduo cabe qual porção da riqueza produzida. Ainda que imprescindível enquanto a abundância não for universal, não deixa de ser um desperdício de energias humanas a ser superado no futuro.
Vejam: isto será inevitável porque, se não há abundância, os bens devem ser repartidos igualitariamente, o que significa determinar quanto cada um pode se apropriar de cada produto e o quanto cada um deve trabalhar para ter o direito de se apropriar de cada produto.
Este mecanismo de controle, por mais que seja coletivo, por mais que todos dele participem, por mais que não seja cristalizado em alguns grupos ou pessoas através de um constante revezamento, ainda assim é um mecanismo de controle. E, como todo controle social, aumenta a jornada de trabalho de todos porque ocupa pessoas que, de outro modo, poderiam estar empregadas diretamente na produção dos bens de primeira necessidade.
Por ser um mecanismo de controle, por ser um poder que se distingue da totalidade da sociedade (ainda que seja sua expressão) e que se confronta com os indivíduos como algo a eles externo e superior, a Comuna ainda é um poder político, é a afirmação prática e cotidiana de um poder social acima dos indivíduos. Verdade que, diferentemente do poder da burguesia, a Comuna é a expressão das necessidades e possibilidades reais da totalidade dos trabalhadores e proletários. Isto faz uma enorme diferença, acima de tudo porque, ao possibilitar que todos trabalhem e decidam sobre a produção, prepara a generalização da abundância.
Mas, mesmo com todas essas positividades, ainda é um poder acima e sobre os indivíduos e, por isso, deve ser superado tão logo a carência seja universalmente superada.
Este é o limite da Comuna: é expressão de que a carência ainda está presente para porções significativas da humanidade e para áreas de produção importantes. Deste seu limite decorre a tarefa histórica da Comuna: fazer da abundância a situação universal de toda a humanidade.
A Comuna, bem pesadas as coisas, é o último traço da sociedade de classes, tanto no sentido da produção (a carência ainda se mantém em setores importantes) quanto do ponto de vista da organização social (o mecanismo de controle que impõe que cada um deve participar da riqueza comum segundo o quanto contribui para a produção desta).

A abundância e o “reino da liberdade”

Imaginem a seguinte situação: em uma Comuna com 200 membros, há 100 maçãs para todos. A regra de distribuição deverá ser, igualitariamente, uma maçã para cada duas pessoas. E alguém precisará controlar para que ninguém leve mais do que pode e, que, portanto, haja de fato 1/2 maçã para cada um.
Nesta circunstância, se alguém quiser mais maçãs (por exemplo, para fazer uma torta de maçãs para o aniversário de seu filho), poderá trocar com outras pessoas algo que possui, ou mesmo prestar algum serviço, em troca das maçãs de que necessita. Isto é a circunstância real em que a carência impõe o preceito da igualdade formal, burguesa: todos são iguais e, por isso, merecem a mesma quantidade de maçãs. A implementação prática da igualdade na carência requer algum controle sobre os indivíduos.
Imaginem, agora, uma outra situação: na mesma Comuna com 200 membros, há 3 mil maçãs para serem distribuídas.
A regra agora só pode ser outra: cada um pega quantas maçãs quiser. Se Mariazinha pegou quatro frutas, Pedro pegou 17 e Romilda 100, não faz a menor diferença, pois há maçãs de sobra para todos. Se alguém se dispuser a controlar, será uma atividade ridícula: se há para todos, o controle da distribuição não faz o menor sentido. E, ninguém irá se dispor a trocar por maçãs nada do que possui, nem qualquer serviço.
Esta a diferença da abundância e da carência, quando se trata da repartição do que foi produzido. A carência impõe o controle para se ter igualdade. E a igualdade só pode ser a cada pessoa uma porção igual da riqueza social. Na abundância, a igualdade é outra: a cada um de acordo com sua necessidade.
Isto para a esfera da distribuição. Algo análogo ocorre na produção.
A abundância significa não apenas que produzimos mais do que o necessário para a totalidade das necessidades de toda a humanidade, mas também significa que produzimos muito mais por cada hora trabalhada.
Um cálculo realizado pela ONU no final do século 20 indicava que, para se produzir tudo o que hoje é produzido no planeta, se todos os humanos entre os 22 anos e os 50 anos de idade trabalhassem, se a licença maternidade passasse para quatro anos e a licença paternidade para três anos – e se todos trabalhassem com a produtividade média de um trabalhador japonês (não mais, naquela época, topo da produtividade do planeta), cada pessoa teria de trabalhar 17 minutos por dia!!
Dezessete minutos para produzir todos os armamentos, as comidas e roupas que são desperdiçadas, a energia que é mal consumida, os venenos agrícolas que nos contaminam a cada dia e os remédios que só fazem a fortuna do complexo médico-hospitalar! Dezessete minutos para destruir o planeta e matar aos poucos a todos nós. Se fosse para produzir apenas o necessário para os humanos, sem as desumanidades que decorrem do capital, poder-se-ia trabalhar bem menos, oito ou seis minutos por dia!!
Percebam: isto é a abundância! Se todos trabalharem (e nas melhores condições possíveis), ter-se-ia que trabalhar algo em torno de oito horas a cada 30 dias — e com o desenvolvimento das forças produtivas, ainda menos. A vida humana seria reformulada inteiramente: o necessário para a reprodução da vida humana seria diminuído para um dia por mês e, depois, para ainda menos. Os sábados e domingos seriam, agora, 29 dias do mês. Os dias de segunda a sexta (os dias de trabalho) seriam reduzidos a um dia por mês!
Pensem em como diminuiria o transporte de pessoas pelas cidades, como se reduziriam imediatamente os maiores problemas de trânsito e poluição urbanos, como aumentariam as festas, os jogos de bola, a produção artística; como se teria muito mais tempo para amar, escrever, fazer poesia e tudo aquilo que é verdadeiramente humano. Como se ficaria muito menos doente, como se seria muito mais saudável, como a vida seria muito mais confortável e feliz. Aposentadoria? Um problema simplíssimo: ninguém trabalha se tem mais de 50 anos. O trabalho de todos é mais do que suficiente para manter as crianças e os idosos.
Isto é a abundância: ter-se-ia de tudo em abundância com muito menos trabalho. Desde que todos trabalhem, desde que não haja uma classe dominante a explorar os trabalhadores e proletários, desde que se supere o capital, haverá riqueza suficiente para todas as necessidades de todos os humanos. Isto é a superação da sociedade de classes, do Estado, da política e do patriarcalismo (a monogamia).
Nesta nova situação, se, por exemplo, para fazer uma viagem de volta ao mundo, eu decidisse ficar dois anos sem trabalhar, e meu camarada Ivo topasse me substituir, desde que eu, nos dois anos subsequentes, o substituísse no trabalho, se fizéssemos este acordo entre nós, não haveria a menor importância para a humanidade. A autonomia dos indivíduos, também na produção, seria a condição imprescindível a fim de que todos trabalhassem para o bem comum, para a riqueza produzida coletivamente. A rigor, nem profissões como as que conhecemos hoje ainda existirão…
E esta autonomia apenas é possível se todos participarem das decisões que envolvem o quê, o como e o quanto deve ser produzido, se todos decidirem em que condições deve se dar o trabalho de todos. Ou seja, isto só é possível se o trabalho não for mais o trabalho assalariado obrigatório, mas sim um trabalho livre, coletivo e consciente de todas as pessoas da humanidade.
Este trabalho livre, coletivo e consciente é o trabalho associado. E o trabalho associado é o que funda o modo de produção comunista.
A função social da Comuna é preparar a transição da carência à abundância, do trabalho assalariado ao trabalho associado, e realizar a transição da sociedade de classes para um planeta sem patrões. Realizada esta tarefa, a Comuna tenderá a desaparecer. E, com ela, irá para a “lata de lixo da história” (a expressão é de Engels) tudo aquilo que serviu para as classes dominantes explorarem os proletários e trabalhadores: o Estado, o Direito, a política, a violência, o patriarcalismo (a monogamia) e a propriedade privada.
A atual tarefa histórica da humanidade é derrubar o poder burguês (sob a forma de democracia ou de ditadura) e colocar em seu lugar a Comuna, para realizarmos a transição à forma superior de liberdade hoje possível à humanidade: o comunismo.

O possível e o impossível

Hoje, a Comuna é uma impossibilidade e o dilema burguês democracia-ditadura é, de fato, o único futuro possível que conseguimos enxergar.
Mas a história da humanidade é, também, a transformação do impossível em possível. Antes da Revolução Francesa (1789-1815), não se afirmava ser impossível uma sociedade sem reis e rainhas? Não era dito então que não ter reis e rainhas equivaleria ao caos e à guerra civil? Antes da abolição da escravidão no Brasil, não se dizia que sem escravos o país não poderia existir? Antes da queda do Império Romano, não se dizia que só haveria civilização com base no trabalho escravo?
Quantos limites a humanidade não deixou para trás? Quantos “impossíveis” foram tornados “possíveis”? E por quantas vezes essa ampliação do possível não se deu rapidamente, em questão de meses ou poucos anos?
As necessidades humanas, quando se tornam urgentes e quando a elas não há alternativa, impulsionam a humanidade para novos e mais elevados níveis de desenvolvimento, que tornam o que era até então considerado impossível, não apenas possível, mas também necessário.
Vivemos hoje um período histórico com estas características.
A velha sociedade de classes, sob sua forma contemporânea, o capitalismo, está morrendo. De sua agonia brota a necessidade urgente de uma nova forma de organização social, em que todos produzam e tenham acesso a tudo o que for produzido, em que as necessidades humanas – e não o lucro – ordenem a produção.
Mais cedo ou mais tarde, a humanidade revolucionará o presente e fará da Comuna algo possível e necessário. Então, a sociedade de classes se tornará uma impossibilidade histórica, tal como são hoje o Império Romano ou o feudalismo.
“Ampliar as fronteiras do possível”: esta a tarefa da humanidade, e esta a tarefa de cada indivíduo que compõe a humanidade. Como? Começando por destruir o Estado burguês e o trabalho proletário, e substituindo-os pela Comuna e pelo trabalho associado.

O Livro Negro do Capitalismo

Em terra de whatsapp quem tem bom senso é rei.

Em tempos de fakenews (notícias falsas, fofocas) tão difundidas pela internet e redes sociais, inclusive de forma irrastreável pelos celulares recebemos muita bobagem e acabamos acreditando, ou pior, compartilhando. Mas claro que no meio de tanta asneira (nada contra os pobres equídeos que servem de referência), há alguma coisa interessante.

Recebi nesta semana num grupo chamado “Socialismo X Capitalismo” (no qual maioria dos participantes não sabe ler e acha que se chama “Lulismo X Bolonarismo” e insistem em fugir do tema) um texto, já bem conhecido dessas discussões, chamado “O livro negro do comunismo”, publicado no Brasil pela Bertrand Editora, através da ArtLine em 1999, escrito e organizado por Jean-Louis Panné, Andrezej Paczkowski, Karel Bartosek, Jean-Louis Marfolin e outros.

Este livro se propõe a trazer o saldo de mortos durante os regimes ditos “comunistas” da Europa e Ásia (e depois do restante do mundo) entre 1917 e 1989, sem discutir fundamentos ou teorias entre direita e esquerda e sem citar o gráfico de Nolan que diferencia regimes autoritários e liberais de esquerda e direita, reafirmando a confusão leiga comum que confunde tudo, como se toda direita fosse liberal e toda esquerda autoritária, sqn. Também confunde comunismo com socialismo, outra falácia comum reafirmada pela confusão do livro, como se Marx tivesse culpa pelas atrocidades posteriores de Lenin, por não ter feito a tarefa de casa. Mas o texto tenta apenas “dar nome e voz às vítimas e seus algozes”. Ou um inventário da repressão política por parte regimes ditos marxistas-leninistas — incluindo as execuções extrajudiciais, as deportações e as crises de fome. Foi publicado originalmente em 1997, na França, sob o título Le Livre Noir du Communisme: Crimes, Terreur, Répression (“O livro negro do comunismo: crimes, terror, repressão”).

A proposta, parece muito justa do ponto de vista estatístico e de memória, apesar de desconsiderar causas, até por serem de difícil julgamento.

Então, considerando que seus dados sejam reais (o que tem diversas argumentações e polêmicas contrárias, inclusive entre os próprios autores), resolvi fazer um levantamento de dados e comparações com números de vítimas de outros regimes do mesmo período (e após), causados por outros sistemas, o que estou chamando de O Livro Negro do Capitalismo.

O que é Capitalismo?

 

O que chamam de Comunismo?

 

Números comparados

Usando estimativas não oficiais, Stéphane Courtois nO Livro Negro do Comunismo apresenta um total de mortes que chega aos 94 milhões entre 1917 e 1989, sendo:

Agora vamos aos números oficiais causados pelos regimes capitalistas e outros não comunistas no mesmo período:

  • Nazismo (ditadura capitalista autoritário nacionalista), Hitler, 40 milhões (sendo ao menos 6 milhões destes de judeus só em campos de concentração) entre 1921 e 1945.
  • Japão, Hirohito, entre 1928 e 1989, 11 milhões
  • Ditaduras militares “capitalistas”:
  • Indonésia, Suharto, 2 milhões de “rebeldes comunistas” mortos e 750 mil outras entre 1965 e 1985 (renunciando só em 1998) com apoio dos EUA.
  • Iraque, Saddan Hussein, 2 milhões entre 1979 e 2002, com apoio dos EUA
  • Uganda, Amin Dada, 500 mil entre 1971 e 1979
  • Itália, Mussolini, 440 mil entre 1922 e 1943
  • Espanha, Franco (ditadura capitalista nacionalista), 1936-1975, 500 mil
  • América Latina
  • – Chile, Pinochet (ditador militar nacionalista), 1973-1990, 3 mil (3172)
  • Fome na África

 

Mortes “Capitalistas” e outras não comunistas, anteriores ao período “Comunista”, anteriores a 1917:

  • Inquisição Católica
  • Grande fome da Irlanda (1845-1852):
  • Congo, por Leopoldo II  da Bélgica (1835-1909), 8 milhões
  • Oriente Médio, Tamerlão, 1336 a 1405, 20 milhões
  • Oriente Médio, Bagdá, Gengis Khan contra os mongóis, 1162 a 1227, 40 milhões (10% da população mundial da época)
  • China, Nurhaci, 1569-1626, 25 milhões
  • América Latina
  • – México, Hernan Cortés (1485-1547), 19 milhões
  • Fome na África

Mortes “Capitalistas” posteriores ao período “Comunista”, após 1989:

  • Povos nativos expulsos de suas terras no Brasil para ceder ao “agronegócio”
  • Guerra do Irã
  • Guerra do Golfo
  • Ruanda, Bagosora, 1992-1994, 800 mil
  • Iugoslávia (Sérvia, Croácia, Macedônia), Milosevik, 1992-1998, 230 mil
  • Libéria, Taylor (ditador nacionalista capitalista), 1991-2001, 75 mil (em nome de diamantes)
  • América Latina
  • Fome mundial (2010): De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), em seu informe de junho de 2009, 1 bilhão 20 milhões de pessoas, a maior cifra na história, padecem de fome no mundo. O diretor desse organismo internacional Jacques Diouf e a Diretora do Programa Mundial de Alimentos (PMA) Josette Sheeran apresentaram as cifras como resultado da crise econômica global e dos altos preços dos alimentos. Os dados assinalam que não só aumentou o número absoluto de pessoas famintas no mundo, mas que em três anos aumentou também a porcentagem da população que passa fome. Segundo o diretor da FAO, graças à perigosa mistura de crise econômica e altos preços dos alimentos, em 2008, outras 100 milhões de pessoas entraram na categoria de famintos, o que supõe um incremento de 11%. Na atualidade (2010), uma de cada 6 pessoas no mundo padece de fome.
mapa da fome no mundo

Mapa mundial da fome, 2014: Será que o mundo todo é comunista? Ver também GHI (índice Global da Fome)

 

 

 

 


Referências e Links Relacionados

  1. O livro negro do comunismo: crimes, terror e repressão / Stéphane
    Courtois… [et alli.]; com a colaboração de Remi Kauffér… [et alli.]; tradução Caio Meira. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. 924p., [32] p. de estampas: il.
    Tradução de: Lê livre noir du communisme ISBN 85-286-0732-1
    Disponível em https://sumateologica.files.wordpress.com/2009/09/o-livro-negro-do-comunismo-crimes-terror-e-repressao.pdf .
    Mais informações resumidas em: https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Livro_Negro_do_Comunismo
  2. Jason Unruhe — O Livro Negro do Comunismo Desmascarado. https://iglusubversivo.wordpress.com/2017/11/12/jason-unruhe-o-livro-negro-do-comunismo-desmascarado/

  3. O capitalismo é o sistema mais assassino da história. http://ideiasembalsamadas.blogspot.com/2018/01/o-capitalismo-e-o-sistema-mais.html
  4. Minha resenha sobre o Livro negro do comunismo. https://felipepimenta.com/2012/10/17/minha-resenha-sobre-o-livro-negro-do-comunismo/

Nesta quarta semana de maio de 2018 o Brasil “foi surpreendido” por uma greve dos caminhoneiros no país.

O governo historicamente faz campanha que iria reativar o sistema dos transportes por trem, além de investir nos transportes fluviais, já que temos muitos rios navegáveis. Mas essa ideia nunca saiu do papo.

Caminhoneiros

Consequentemente em menos de uma semana se instalou uma crise no país, inicialmente com o fim dos combustíveis nos postos de gasolina num desespero alarmado pela mídia. Como eles são o único meio de transporte adotado, também começaram a faltar alimentos para as criações animais confinadas, dependentes de importação de insumos. A mesma ausência se espera com remédios, em breve com alimentos, correspondências e outras necessidades básicas. Nestes quase cinco dias a cidade parou, pois não tem mais combustíveis para o transporte público.

Consequentemente as universidades, escolas e algumas empresas estão paralisando.

Reparam que todos estes problemas são consequências da centralização e monocultura ao contrário da diversidade?

Um pouco de história “semelhante” em Cuba

Ao final da queda do socialismo, com a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética – URSS, em 1989, que bancava a ilha de Cuba em troca de alimentos e materiais tropicais por combustíveis e insumos outros, a ilha, do dia pra noite, passou a ficar sem combustíveis, e os caminhões não conseguiam trazer alimentos do interior da ilha para as cidades.

Aconteceu exatamente o que se passa atualmente no Brasil em apenas uma semana, mas lá de forma permanente. Esta passagem ficou conhecida como a depressão cubana dos anos 1990, reforçada pelo bloqueio dos EUA, maior economia da época. Meses até começarem a se reestabelecer.

Em menos de um mês a população precisou aprender a diversificar sua forma de vida, fechando ciclos e indo contra a dependência energética global. Todos seus resíduos orgânicos (lixos) passaram a ser utilizados para a produção de alimentos nas ruas e telhados, o que ficou conhecido como organoponia. A falta de energia obrigou a muitos a passarem a captar água da chuva. O país passou a reformular suas formas de agricultura, pois não tinha mais como importar adubos derivados de petróleo, desenvolvendo assim uma agricultura em grande escala de forma um pouco mais sustentável. O restante da história já conhecemos bem, pois com o embargo o país se viu obrigado a investir no que realmente é importante para a população: educação e saúde de qualidade. Apesar de “pobre” economicamente, esse país tem toda a população com ensino superior, e a melhor saúde do mundo em atendimento médico e população atendida.

Muita permacultura se desenvolveu a partir daí, pois a permacultura é o melhor caminho para planejar ambientes sustentáveis permanentes.
* Veja mais sobre a permacultura cubana aqui, por yvyporã

e também no vídeo ao final deste texto: O poder da comunidade.

A permacultura e a crise energética mundial

A permacultura nos apresenta em sua ética três questões básicas a sempre serem lembradas:

  1. Cuidar da Terra
  2. Cuidar das Pessoas
  3. Limites ao crescimento e ao consumo, compartilhando excedentes, inclusive conhecimentos

E como a permacultura é uma forma de planejamento de ambientes humanos sustentáveis, seja uma casa, uma fazenda, um bairro, cidade ou até um país, ela traz alguns princípios de planejamento e formas de se pensar o espaço.

Destes, resumidamente, doze princípios destaco o décimo, que tudo tem a ver com este problema:

10. Use e valorize a diversidade!

Que traz como frase de exemplo:

“Nunca coloque todos os ovos no mesmo cesto”

O qual se reflete na metodologia de planejamento, que na permacultura nos ensina que quando pensamos em atender uma necessidade sempre devemos ter pelo menos duas ou três fontes ou formas diferentes de atendê-la!

Isso é reflexo das lições básicas de ecologia, lá da quinta série (ou sexto ano), onde aprendemos a importância da biodiversidade para a vida. Mas como nossa educação é linear e sistemática, pouco ou nada sistêmica, não aprendemos a fazer relações e reproduzir os princípios da natureza para todas as coisas da vida. Isto é o que nos ensina a permacultura.

Se o país fosse planejado, executado e legislado, numa forma permacultural, jamais existiria “apenas uma cesta para levar todos os ovos”!

é pra “desenhar”?

Os caminhões não seriam a única forma de transporte. Igualmente distribuídos TODOS os produtos iriam a seus destinos por trens, barcos e somente nos finais, por caminhões. Isso resultaria numa melhor qualidade de vida para os caminhoneiros.

Aliás, os derivados de petróleo não seriam a única fonte de energia para os veículos. O Brasil já se destacou como referência em veículos movidos a energia renovável…. mas assim como o lobby das indústrias de carros, existe dos combustíveis, que enquanto o petróleo não acabar não vão mover uma palha em nome das energias limpas.

Os produtos perecíveis não viriam de longe, então não nos preocuparíamos com a falta de alimentos. Aliás, seriam produzidos em todos os bairros e não no outro lado do planeta!

Aliás, os cultivos e criações não seriam monoculturais, e muito menos dependentes de insumos externos, que também dependem destes sistemas. Mas como também existe lobby de indústrias alimentícias, existem de agrotóxicos (venenos, “defensivos”), inclusive com um grupo grande e influente do agronegócio dentro do governo, como sempre não representando a população, só interesses próprios.

O mesmo serve para os remédios e medicamentos.

Enfim, as cidades não teriam tanta concentração de pessoas, pois isso nos fragiliza!

Os resíduos (lixos) orgânicos, assim como os esgotos deveriam ficar nas suas ruas ou bairros de origem, e deles ser possibilitada a origem de alimentos orgânicos para a população local em hortas comunitárias. Já os resíduos inorgânicos não deveriam existir, simples assim.

Ou mudamos todas essas formas de viver, de produção e principalmente de consumo, ou continuaremos dependentes do sistema para tudo. Não temos obrigação de alimentar o sistema, e o estado deveria nos possibilitar isso incentivando essas iniciativas, promovendo-as.

E é isso que busca a permacultura, possibilitar que não fiquemos tão dependentes dos meios externos para viver. Vale conhecer!


Links relacionados:

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veja mais em: http://sitionosnateia.com.br/2018/05/pico-do-petroleo-permacultura/ 

 

Começo este texto falando da agrofloresta, ou com seu renome propaganda mais recente – Agricultura sintrópica – pelo seu próprio criador deste nome:

ERNST GÖSTCH

SYNTROPEDIA

(buscando a referência e data, se alguém tiver me envie)

Uma pergunta que comumente nos fazem é “qual a diferença entre agricultura sintrópica e agricultura orgânica?”. Já produzimos alguns materiais que abordam o tema – e que, inclusive, procuram posicionar a agricultura sintrópica também diante das outras nomenclaturas que compõem o universo das agriculturas sustentáveis e regenerativas – mas resolvemos pedir para o próprio Ernst Götsch dar a sua resposta, e é isso o que você confere agora!

DIFERENÇAS ENTRE AGRICULTURA SINTRÓPICA E AGRICULTURA ORGÂNICA (POR ERNST GÖTSCH)

Agricultura Orgânica e Sintrópica são duas irmãs, partindo da mesma ideia, porém, a abordagem para a solução dos problemas que encontram nos seus trajetos as levou para diferentes esferas. A Agricultura Orgânica visa substituir a adubação química (usual na agricultura convencional) por uma adubação primordialmente orgânica (compostos feitos de restos orgânicos, adubação verde, esterco, caldos etc.). Na Agricultura Sintrópica trabalha-se o desenho dos arranjos com diferentes espécies, passando pela implantação e, depois, continuando em cada passo na condução das nossas plantações de modo que elas produzam o seu próprio adubo. Para essa finalidade, planta-se numa alta densidade árvores, gramíneas e ervas que têm em comum a característica de fácil e vigoroso rebrote após poda. E maneja-as de acordo. O efeito daquela poda, periodicamente feita, resulta – além da condução da oferta de luz para as nossas culturas – em matéria orgânica em grandes quantidades que, colocada sobre o solo, cria vida próspera nele e, indiretamente, adubo para as nossas plantas.

 

Um benefício adicional, do tamanho dos primeiros dois – luz e adubo – se não maior, é o efeito do rejuvenescimento do sistema todo que acontece após a poda: informação de novo crescimento, vigor e saúde para o sistema inteiro, induzido pelo rebrote dos nossos aliados. Isto nos leva para a próxima diferença entre a Agricultura Orgânica e a nossa Sintrópica: na agricultura orgânica é previsto um controle fitossanitário, ou seja, o combate às doenças e pragas. Para isto há normas que definem o que é permitido e o que não é permitido, e disponibilizam para o uso todo um arsenal de preparados, caldos, misturas de minerais para fortalecer as plantas, ou para matar ou afastar pragas e doenças, armadilhas para captar insetos não queridos, criação e depois liberação dirigida de predadores etc. etc. No fundo, são ferramentas desenvolvidas e usadas como consequência da divisão, da separação entre o bem e o mal.

 

No nosso caso, na Agricultura Sintrópica, trabalha-se para obter vigor e saúde próspera do sistema todo, e tratam-se aquelas consideradas pragas ou causadores de doenças como indicadores de pontos fracos nas nossas plantações, causados por erros cometidos por nós mesmos. Erros cometidos no desenho ou na condução dos nossos agroecossistemas e, olhando assim para eles, são aliados indiretos, integrantes do sistema imunológica do macro-organismo vida do planeta Terra (do qual não escapamos de ser parte).

Olhando por essa perspectiva, não existe bem e mal. Existe, sim, função. Aqueles colegas, considerados pragas, podem indiretamente nos dar pistas de como interagir de forma mais orgânica no sentido do macro-organismo, para que não haja a necessidade de uma diligência de urgência pela parte dos bombeiros do sistema. Por isso, mais uma vez, são aliados, integrantes do sistema imunológico, igualmente aos glóbulos brancos no nosso corpo que entram em ação e se proliferam quando os processos de vida nele (do macro-organismo) saem da dada matriz.

 

Ou, escute o que Êsopos (700 a.C.) disse, ou o que ele deixou Cronos falar para o homem que, segundo ele, tinha criado os seres neste planeta, e assim também o homem. “Homem, te ponho neste lugar, seja ele o seu paraíso! Viva bem! ocupe-o e multiplique-se! Seja criativo! Podes fazer o que quiseres. Te encante! Tem uma condição só, um limite: as leis em que o macro-organismo, cujo parte tu és, gira, funciona, dadas são (pré-estabelecidas). Nem a nós, deuses do Olimpo, cabe fazer as nossas próprias leis!“. O homem viveu feliz. Um dia, no entanto, ele começou a pensar “e se nós fizéssemos as nossas próprias leis? Mais poderosos que os deuses do Olimpo ficaríamos.” E, fazendo isto, (as suas próprias leis), eles entraram em conflito com aqueles deuses (do Olimpo) e começaram a fazer guerra contra eles.

Observando isto, Cronos começou a coçar os cabelos na sua cabeça, pensando: “o que vou fazer com esta minha cria? Vou matá-los!” – decidiu, e desceu com o seu machado no seu ombro do Olimpo. Quando, no entanto, chegou nos homens, vendo eles, mudou de ideia: “Homem” – exclamou ele – “como castigo para a sua desobediência vou rachar-lhes”. Pegou o seu machado e o fez. “E isto” – disse ele – “tem como consequência que tentarão se reencontrar com a sua segunda metade a sua vida inteira, e não a encontrarão. E mortal será isto para a sua espécie”.

E com isto dadas são as leis de Êsopos, e o fato de ter aceitado isto, e o agir de acordo, chega-se a fechar o círculo, e nós voltaremos para o inicio da minha resposta para sua pergunta: a abordagem para a solução dos problemas que encontramos acabou por levar a agricultura sintrópica e orgânica para esferas diferentes.

Já a Agroecologia é a prima que tomou outro caminho quando pequena, e no Brasil (e Américas) tomou um caráter redundante querendo abraçar todos os demais conceitos da antiga “Agricultura Alternativa”. Por essa proposta ela abraçaria inclusive a permacultura e a agrofloresta, assim como a agricultura biodinâmica, a agricultura natural e outras.

Com o passar dos anos a Agroecologia se tornou reconhecida pela acadêmia e virou ciência, e ao mesmo tempo se tornou um movimento social, indo muito além das técnicas, onde a agrofloresta, a biodinâmica, a agricultura natural melhor se encontram. Certamente que cada uma destas tem suas filosofias e conceitos por trás. Poderia se dizer que a agrofloresta também está se tornando um movimento forte no Brasil e vem sendo adotada pela academia (ainda bem), assim como a agricultura natural teria um viés filosófico forte por ser adotada por uma religião a ela relacionada. Mas de qualquer forma são muito mais técnicas, e assim reconhecidas, que filosofias.

Neste sentido a Permacultura tem um diferencial. Se em sua origem ela surgiu como uma técnica e se encaixaria perfeitamente no conceito supracitado, na década de 1990 ela tomou outra cara e deixou de ser a tradução de “agricultura permanente” para evoluir ao conceito de “culturas permanentes”. A partir daí a permacultura deixou de caber apenas dentro da agroecologia e tomou novos rumos.

A permacultura é uma forma de planejamento de ambientes humanos que sejam permanentes, pensados em escala global através de ações locais.

Então a forma de produção de alimentos é apenas um fator muito importante nesta grande teia que é a humanidade. A permacultura, em sua forma de planejar os espaços para nós humanos, pensa em todos os outros meios que para nós são realmente importantes (vide pirâmide de Maslow por exemplo). Assim ela transpassa a produção ecológica de alimentos, acessando o construir, morar e habitar; o gerar, armazenar e ciclar águas e energias; o conviver, bem viver, o educar, o se cuidar e confraternizar; o cooperar, partilhar, aprender… e tantos outros fatores como são exemplificados em sua flor da permacultura.

A permacultura nos ensina a conectar todas as coisas de nossas vidas atuais que estão desconexas e nem percebemos. Nos ensina a ver o mundo de forma sistêmica, interdisciplinar, fechando ciclos antes inimagináveis.

Portanto a permacultura traz valores de diferentes povos e lugares em diferentes tempos, é também um resgate, que se associa aos novos conhecimentos e tecnologias, absorvendo aí a agroecologia e tudo o que ela trouxer de bom, que caiba em sua ética e seus princípios. O mesmo faz com a agrofloresta, com a biodinâmica e muito da agricultura natural (Mokiti Okada), de quem assumidamente bebeu na fonte, e poderia se dizer irmã caçula, ou melhor, sobrinha.

Este texto vem desmitificar algumas confusões.

Em breve linkarei todo o texto para melhor entenderem cada uma dessas expressões.

Desejo assim que sejam bem vindos a um mundo onde ser mais ecológico e estar em sintonia com o planeta é possível, sem perder em qualidade de vida.

 

OUTROS LINKS OU TEXTOS DE INTERESSE:

1. Permaculture for agroecology: design, movement, practice, and worldview. A review. FERGUSON, R.S.; LOVELL, S.T. Agronomy for Sustainable Development. Abril 2014, Volume 34, 2ª edição, pg 251–274. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007/s13593-013-0181-6> e em <https://link.springer.com/content/pdf/10.1007%2Fs13593-013-0181-6.pdf>

2. QUAIS AS DIFERENÇAS ENTRE AGROECOLOGIA, AGRICULTURA ORGÂNICA, AGROFLORESTA E PERMACULTURA? – https://educezimbra.wordpress.com/2016/06/15/quais-as-diferencas-entre-agroecologia-agricultura-organica-agrofloresta-e-permacultura/.

3. Agrofloresta X Agricultura Sintrópica X Permacultura X Orgânicos – http://quintalflorestal.com.br/agrofloresta-x-agricultura-sintropica-x-permacultura-x-organicos/.

4. Entenda as diferenças entre: Agroecologia, Agricultura Orgânica, Agrofloresta e Permacultura – https://blog.guiadeterapeutas.com.br/2016/02/17/entenda-as-diferencas-entre-agroecologia-agricultura-organica-agrofloresta-e-permacultura/.

 

 

Leitura essencial para os interessados em fazer cursos de permacultura e indispensavelmente óbvia para os ministrantes de PDC – Permaculture Design Course, Curso de Planejamento em Permacultura:

Yvy Porã

A Permacultura vem crescendo na sua divulgação, e isso é muito bom de ver, afinal, queremos mais e mais permacultores agindo pelo mundo.

Este crescimento traz também alguns problemas, como pessoas usando o termo, dando cursos, sem a devida formação. Um curso de design em Permacultura, chamado pela sigla PDC é a base da formação de um permacultor, e aqui mesmo neste blog já publicamos sobre a seriedade desta formação. Queremos contribuir cada vez mais neste processo.

Com a propagação de cursos sem o devido cuidado e estrutura, o “Cuidado com as pessoas” fica absolutamente em segundo plano, e começam a aparecer problemas que vão desde cursos superficiais até casos extremos de assédios. Há um ano foi publicado um documento chamado Manifesto dos Aprendizes de Permacultura. Este documento mobilizou, em cada permacultor, quais ações poderíamos fazer para melhorar o aprendizado e as vivências em permacultura.

Os permacultores mais experientes…

Ver o post original 126 mais palavras

Republico o texto abaixo, pois toda vez que vou postá-lo no facebook ele é censurado e eu não consigo, então resolvi copiar e colar no meu próprio blog para ter acesso quando preciso, pois nada deveria ser mais natural que o corpo humano.

O original tá aqui.

Nudez e vergonha do corpo

Arthur Virmond de Lacerda Neto

arthurlacerda@onda.com.br

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Por que o brasileiro encobre certas partes do seu corpo nas praias? Décadas atrás, havia traje de banho: as pessoas banhavam-se no mar vestidas, com trajes próprios, que, nos homens e nas mulheres, encobriam-lhes o peito e a metade superior das coxas. Depois, os homens descobriram o tórax e as mulheres adotaram o “maillot”.  A seguir, o calção de banho masculino reduziu-se a as mulheres adotaram o biquini, em que se lhes ocultam as mamas e o púbis. Surgiram, a seguir, a sunga, o “fio dental” (que seria melhor designado por fio de nádegas) e a porção superior do biquíni reduziu-se drasticamente. Hoje, é mínima a parcela do corpo humano que a moral convencional obriga a encobrir, nas praias.

As mamas e a genitália feminina são, ainda, ocultas por indumentos mínimos, se é que se pode chamá-los de roupas. Na verdade, não o são; não são trajes de banho. São a expressão da mentalidade do brasileiro, segundo a qual é moralmente necessário, por decência, por pudor, por “uma questão de ética” e de moralidade, que se velem, minimamente que seja, as mamas e a genitália (as nádegas acham-se totalmente expostas, há décadas). Da mesma forma, o homem deve encobrir as nádegas, o pênis e o escroto.

Qual a racionalidade da ocultação destas partes? Nenhuma. Assim como, dantes, nenhuma imoralidade havia na exposição do peito dos homens e na abdômen das mulheres, nenhuma indecência há em as mulheres andarem de mamas ao vento e os homens de pênis solto.

Nu no metrô.

O corpo é natural (ou não?); ele não é imoral (ou é?).  Nenhuma das suas partes deve ser motivo de vergonha (ou deve?); não há regiões do corpo mais decentes e outras menos (ou há?). “Naturalia non turpia”, diziam os antigos: o natural não envergonha, não deve envergonhar, não há porque envergonhar.Qual é a justificativa racional, defensável, coerente, de se obrigar moralmente ao velamento de certas partes do corpo? Nenhuma. Por que o pênis deve ser ocultado? Por que as mamas devem ser encobertas? Por nenhum motivo; apenas e exclusivamente por causa da rotina mental, do costume, da imitação do uso, da repetição, do modelo mental a que as pessoas são condicionadas, a que aderem e que se perpetua por inércia.

Ninguém pense que a exposição da genitália é excitante. Quem nunca viu, observa, na primeira vez, por curiosidade; na segunda, ainda observa, ainda por curiosidade; na terceira, já viu e, mais do mesmo, a repetição enfara e desaparece a curiosidade e, com ela, o olhar. Ademais, pode excitar mais o encobrimento do que a exposição: imagina-se o que se não vê; o que se vê pode decepcionar…

E se a exposição da totalidade do corpo fosse excitante? Que mal haveria em que o fosse? Há mal na libido, na sexualidade, na excitação, na atração física, no interesse? Acaso nada disto existe? Acaso devemos fingir que nada disto existe? E acaso a excitação limita-se às partes encobertas? Só há excitação mercê da observação do que se oculta ou o restante corpo também atrai? E porventura, nas praias, as pessoas sentem-se todas e sempre atraídas e  excitadas com a observação dos corpos quase nus?

A experiência demonstra que a visão do nu completo não é excitante após a segunda ou  a terceira vezes:  o que já se viu torna-se sensaborão, perde a graça. Os brasileiros pensam em contrário, acreditam que o nudismo excita por quase total falta de experiência de observação da nudez total.

Há, no Brasil, raras praias de nudismo, isoladas, quase como se fossem campos de concentração ou lazaretos, cujos freqüentadores devem ser segregados. No Brasil, apesar do calor (Rio de Janeiro, quarenta graus!), ai da mulher que andar de mamas ao vento no areal da praia! Toda a gente olhá-la-a, em regra por curiosidade (nunca viram cousa tal) e haverá policial que intervenha para coibir o atentado ao pudor, duplo índice do retrógrado da mentalidade do brasileiro, para quem o descobrimento das mamas é moralmente condenado e atentatório aos bons costumes. Para mim (brasileiro) é ridículo, é primário que os bons costumes envolvam, ainda, o encobrimento de certas partes do corpo; é idiota que se censurem as mulheres por exporem as suas mamas; é sem sentido que os homens devam ocultar o seu órgão de emissão da urina.

Que diferença há entre tapar-se o bico da mama das mulheres e não o fazer? Uma tira estreita de pano amarrada nas costas; outra tira, mais estreita, sobre os pentelhos,  resguardam a moral e a decência? A sua ausência é atentatória do pudor e dos bons costumes? Pense com seriedade, reflita por um minuto, fora da rotina mental a que está condicionado: que diferença faz? Por que tais trapinhos seriam sinônimos de pudor? Por que a sua ausência é despudorada? O mesmo em relação à genitália masculina. Em que há indecência, imoralidade, atentado ao pudor, ofensa na exposição do que é natural?

Por que nas praias de nudismo a decência é diferente, a pudicícia prescinde de tapa-sexos, o corpo exposto é decente? Em que difere a moralidade do nudista da do vestido? Em que o primeiro encara o corpo como  naturalidade e o segundo associa-o à sexualidade. Erotiza-0 não  quem o expõe, senão quem o oculta: quem o expõe, fá-lo desinibidamente, sem lhe atribuir conotação sensual; atribui-lhe sensualidade quem oculta certas partes, a que atribui papel lúbrico. O nudista não pensa só em sexo; o ocultador, sim. Para o nudista, o corpo é apenas o corpo; para o ocultador, certas das suas partes são motivo de vergonha, a sexualidade é motivo de vergonha.

No areal das praias do Rio de Janeiro, se uma mulher retirar o  tapa-sexo superior, haverá quem chame a polícia, para reprimi-la por ato de despudor, como ocorreu com uma estrangeira, acostumada, no seu país, à exposição das mamas e que se perplexou com a atitude do brasileiro, que admite a nudez integral no carnaval, masculina e feminina, que suporta temperaturas de quarenta graus e para quem os bons costumes dependem de se encobrir o bico do seio.

Na Grécia, os atletas praticavam ginástica nus (ginástica provém do grego “gimnadzein”, ou seja, treinar nu). Por 550 anos, eles disputaram as célebres olimpíadas em nudez total.

A estatuária grega e romana representava os imperadores, os generais, os deuses, nus, de pênis à mostra, sem encobrimento. O corpo não era motivo de vergonha para o romano nem para o grego; era-o para os bárbaros (orientais); tornou-se tal para os cristãos, que herdaram a mentalidade dos bárbaros e não a dos gregos e romanos.

 

Merkel nua.

Revista Sol Amigo, número 152, de 1962. A senhora da esquerda não é Angela Merkel.

Na Alemanha, pratica-se o nudismo integral há cerca de 120 anos. A nudez total integra os costumes alemães. Anda-se nu, em pelo, em público, nas cidades alemãs, sem que tal seja motivo de escândalo nem de atentado à moral e aos bons costumes. Para o alemão, o corpo não é motivo de vergonha nem a nudez é sexual: é natural. Na França, na Espanha, em Portugal (em parte), na Itália (em parte), na Alemanha, na Inglaterra, na Califórnia, na Grécia, na Croácia, na Dinamarca, na Finlândia, na Noruega, na Suécia, na Califórnia e alhures, as mulheres apresentam-se, nas praias, de mamas ao vento e ninguém se escandaliza com isto nem se põe a mirá-las como objetos sexuais, exceto os brasileiros, bisonhos em tais costumes de liberdade.

Na Europa, pratica-se o nudismo doméstico: todos nus, pai, mãe, filhos; 42% dos franceses estão habitualmente nus em casa. Na Espanha, há 230 praias de nudismo. Na Alemanha, há mais de uma centena de campos e praias de nudismo e lá é costumeiro receberem-se visitas nu. Há dezenas de campos de nudismo na Inglaterra e na França. Nos E.U.A.,  passa de 200 o número de centros de bem-estar (“resorts”) nudistas. Na Alemanha, há cerca de 95 anos , com aprovação governamental, e nos EUA, há pelo menos 65, há escolas nudistas: todos nus, inclusivamente os professores.

Na Universidade de Berkeley (Califórnia), é tradicional a corrida dos nus, em que estudantes correm pelos corredores dela, nus, rapazes e moças, alecremente. Em Roskilde (Dinamarca), realiza-se, desde 1971 festival musical, em que há uma corrida de nus; também em Aahrus, na Suécia, em festival popular, correm os nus. Em Meredith (Austrália), é tradicional a corrida dos nus, em festival a que acorrem centenas de pessoas, de crianças a velhos. No deserto do Nevada (E.U.A.) é tradicional o festival Queima do Homem, musical; por ser no deserto e quente, estão todos inteiramente pelados. Na Suécia, é tradicional uma competição musical, em um bosque, com assistência das pessoas em geral, de crianças a velhos, em que os músicos estão nus. Nas Filipinas, a fraternidade Alpha Pi Omega, presente na Universidade de Manilha, promove, anualmente, a corrida e passeio dos seus integrantes, nus. Em Londres, os estudantes das altas escolas promovem o banho no Tâmisa, nus. Na Califórnia, há décadas há escolas nudistas: todos nus, alunos e professores.

 

Em inúmeras cidades européias, norte-americanas, na do México, realiza-se a pedalada nua, em que os ciclistas pedalam, de dia, em público, nus. Em Londres, concentram-se, anualmente, centenas de ciclistas. É permitido fotografar e há centenas delas fotografias na rede de computadores: as pessoas não se escandalizam nem se pejam por estarem peladas em público nem por serem fotografadas nos seus pinto, bunda e mamas. Em algumas cidades do Brasil, há pedaladas nuas, mas uma delas, de SP, foi de noite, no escuro. Percebe a diferença ?

A nudez é escandalosa? É indecente? O pinto e as mamas são indecorosos? Não, definitivamente, não são. O brasileiro é que foi ensinado a pensar que o são.

Nestes países, quem quiser, é livre de andar nu na rua, no mercado, na praça, no metrô. E as pessoas fazem-no. Reconhece-se: 1- a ausência de obrigatoriedade de vestir-se; 2- a liberdade de nudez, como soberania sobre o próprio corpo.

Liberdade de nudez, de andar nu, de não se vestir; direito de não encobrir o próprio corpo. É liberdade que as populações européias reconhecem e praticam e que o brasileiro ainda sequer concebe.

“Mas o que é que uma criança vai pensar disto?”. É exclamação (com forma de interrogação e intuito de censura) típica de brasileiros, que perguntam o mesmo em relação às manifestações homoafetivas. Perante dois homens de mãos dadas, o brasileiro convencional exclama: “O que vai se dizer para uma criança, disto?” (diga-lhe que há homens que amam homens). Perante a possibilidade da nudez total na praia ou na cidade, o brasileiro convencional preocupar-se-á (sincera e também hipocritamente) com a formação das crianças e manifestará escândalo (digo hipocritamente porque a maioria dos pais jovens negligencia a formação dos seus filhos, papel que atribui à escola, como se o professor devesse fazer de pai dos filhos alheios. Outros são hipócritas porque usam a saúde moral das crianças como pretexto sob o qual dissimulam o seu moralismo).

Se uma criança, na praia, na cidade, no campo de nudismo, vir o pênis, o escroto, os pentenhos, as nádegas, a vagina, as mamas, terá visto o corpo como ele é  e terá aprendido que tudo isto integra os seres humanos (inclusivamente ele próprio) e que  nada disto merece, razoável nem justificadamente, ocultação como critério de moralidade.

“Se eu ficar nu, toda a gente vai me olhar”. Muita gente olhá-lo-a por curiosidade, por não estar acostumada com a nudez. A nudez individual, isolada, é atrativa; deixará de sê-lo se, a pouco e pouco, as pessoas exercerem a sua liberdade e tornar-se, gradualmente, costume a exposição, a começar pelas praias.

Na praias francesas, portuguesas (em parte), italianas (em parte), espanholas, gregas, alemãs, francesas, croatas, e mais na Austria, na Suécia, na Dinamarca, na Finlândia, na Noruega, na Inglaterra, na Califórnia, na cidade de Nova Iorque e em outras,  as mulheres andam de mamas ao vento e ninguém lhes liga. Liga-lhes o brasileiro que nunca viu tal: observa-as, por curiosidade, uma vez; outra vez, ainda com curiosidade. Da terceira por diante, já viu. Na quarta, é mais do mesmo. Assim é na Europa há décadas: o europeu abandonou o preconceito de que o tapa-sexo é indispensável à moralidade, aos bons costumes, à salvaguarda da família e dos mais valores da civilização ocidental, de deus e da evitação do pecado.

Peladada Floripa 2016

Neste momento, a mentalidade dos brasileiros, quanto à exposição do corpo, é demasiadamente conservadora, convencional, rotineira, mesmo arcaica. Já foi pior, quando o cristianismo, religião repressora, por excelência da sexualidade, preponderava com o seu ethos. Em décadas pretéritas inexistia o banho de mar: que imoralidade uma mulher expor o tornozelo. O tornozelo! Poderá piorar, na medida em que se propagarem as formas evangélicas de cristianismo, atualmente em avanço no Brasil. Manter-se-á estacionária enquanto não se despertar a atenção do público em relação a tal matéria: hostilizam a nudez as gerações supra-50, cinquentagenários, sexagenários, septuagenários, octogenários, gente formada em décadas passadas, sob modelos mentais de acentuada austeridade e repressão de costumes. Gente velha, de mentalidade arcaica. Também a hostilizam os religiosos de todas as idades, para quem toda nudez deve ser negada. Gente de mente fechada, submetida aos mandamentos bíblicos.

Peladada Floripa 2016. Fonte:  http://www.pedalafloripa.com/2016/03/peladada-floripa-2016.html

O preconceito contra a nudez, a vergonha do corpo, o automatismo do seu encobrimento constituem, propriamente, heranças católicas: padrões de pensamento, de comportamento, de reação emocional, em suma,  mentalidades e costumes que se incutiu no brasileiro mercê da pregação insistente, reiterada, efetuada pelo clero católico e, agora, pelo evangélico, com aplicação de dizeres da Bíblia.

Como sempre, a Bíblia justifica o arcaísmo de comportamentos e a negação das liberdades. Daí, a existência, em décadas pretéritas, do padrão católico de vestimenta feminina e o padrão atual de vestimenta evangélica, em Curitiba, pelo menos, em que as crentes (normalmente da classe C) usam cabelos compridos, presos na nuca, a que não aplicam shampoos nem condicionadores (tampouco se pintam); vestem camisa de mangas compridas ou blusa; saia de brim azul ou semelhante, até a altura dos joelhos; calçam sandálias. Vista uma mulher trajada por esta forma, como forma de identificação de pertencimento à sua classe social, identifica-se nela mulher evangélica.

Também os jesuítas concorreram para a formação da mentalidade anti-nudez. Nos seus manuais, no século XVIII ensinava-se, nos colégios, a trocar de camisa sem se olhar para o próprio sexo e de forma que nenhuma parte do corpo se expusesse, mesmo quando o aluno estivesse sozinho: a nudez torna-se vergonhosa mesmo perante o próprio indivíduo, independentemente de olhares alheios.

Em 1920, José Tomaz de Almeida, na revista Ave Maria, publicada em São Paulo, escrevia: “escravizar-se uma senhora digna ou uma donzela, à moda indecorsa, apresentando-se de pernas expostas, tão curtas usam as saias, de braços nus, com colo e costas à mostra, provocando maus sentimentos, excitando pecados, é contra a moral, é tudo que pode haver de anti-cristão, de condenável, de verdadeiro paganismo!”

            Adiante: “O corpo da mulher deve andar velado, pois ele é o templo vivo do santuário da divindade. O dernier cri do nu, como a desfaçates da impudica e leviana, avilta e deshonra a virtude nas suas exibições”.

            “O pudor, a modéstia e a timidez, são o encanto da mulher.”

            “Encompride as saias curtas, que exibem as pernas; levantae os decotes que expõem vosso corpo; baixai as mangas que descobrem os braços; sede discretas no trajar para não vos confundir com as heroínas do vício”.

            Por sua vez, o padre Ascânio da Cunha Brandão, na mesma revista Ave Maria, em 1936, verberava os costumes de liberdade dos alemães:

Aí está por exemplo a Alemanha, mandando buscar nas ruínas da Grécia pagã o fogo sagrado para a suas Olimpíadas e prestando à carne e aos deuses pagãos um culto que excede as raias da estupidez e do ridículo.

            Os deuses! A Grécia! As Olimpíadas! O nudismo! O atletismo!”

Adiante: “Não é condenável, por exemplo, este espetáculo de vergonha e despudor que nossas praias de banho? Este nudismo escandaloso está reclamando uma medida enérgica. É incrível!”.

            Em 1944, o mesmo padre, em outra colaboração com a revista, asseverava:  “Sim, a Igreja, ou melhor, a moral católica reprova como ocasião de pecado e de escândalo, o nudismo exagerado nas praias e o banho em comum na promiscuidade dos sexos”. Pretendia ele que as mulheres usassem maiô (peça de vestuário que lhes velava o tronco, das mamas à virilha) e que os homens e as mulheres freqüentassem o areal da praia separadamente, à maneira do regime de segregação da Africa do Sul, em que se isolavam os brancos dos negros.

O ethos católico de velamento do corpo perpetuou-se, como dado da formação dos costumes brasileiros; o que há de mais imbecil, mais retrógrado, mais tacanho, mais obtuso, mais burro da igreja católica inveterou-se nos costumes do brasileiro. As pessoas já não se lembram de pregações deste tipo, porém praticam os comportamentos correspondentes porque se lhes criou uma verdade e uma ética, que considero verdadeira porcaria mental e moral.

O exercício da nudez e o uso da vestimenta compreendem formas de liberdade. Na Alemanha e em outros países europeus, há a liberdade de vestir-se e a de não o fazer. Veste-se quem o quer fazer e anda nu quem entende fazê-lo: isto é liberdade.  Não significa que os alemães exibam-se preferencial ou corriqueiramente desnudos, porém a desnudez não os escandaliza. Não é que prevalece no Brasil.

A moralidade liga-se aos valores, ao senso de verdade, de solidariedade, de probidade, à disciplina pessoal, à generosidade, à paciência, à compreensão, à empatia, à perseverança, ao estudo, ao cultivo de si próprio, à aquisição da cultura, aos bons modos, à colaboração. A moralidade não se prende à repressão da sexualidade (até certo ponto) nem ao velamento de certas partes do corpo, tampouco à obediência à textos da Bíblia nem a padrões de comportamento baldos de sentido.

Há moralidade e há moralismo. Aquela envolve a liberdade pessoal e de costumes; este compreende, também, padrões de comportamento liberticidas e irracionais. É o caso, a segunda, do brasileiro, em relação à nudez. Oxalá evoluam eles do moralismo para a moralidade; da censura que praticam por rotina para a liberdade de que aprendam a usufruir.

Nos últimos meses, repetiram-se casos de nudez em público em Porto Alegre e em Curitiba. Houve, pelo menos um caso, também em Brasília e outro em Jaraguá do Sul, em meses recentes.

São sinais dos tempos. São indícios de que há modificações nas mentalidades e nos costumes: tendem, uns e outros, para menos vergonha do corpo, menos pudor, menos preconceitos artificiais, mais naturalidade, mais liberdade, mais cada um ocupar-se menos da vida e do corpo alheios.

O desnudamento já não mais isolado, porém multiplicado; não protestatário, porém sereno; não afrontoso, porém respeitoso; não exibicionista, porém discreto, revela uma nova realidade axiológica e comportamental. As pessoas começam a aceitar a nudez em público; porém raras ousaram, até o presente, praticá-la.

Os quatro ou cinco nus de Porto Alegre, os quatro ou cinco de Curitiba, não são delinqüentes nem exibicionistas sexuais; as suas manifestações, idênticas, não constituem coincidências extraordinárias. Salvo o caso de dois, doente psiquiátrico e de outro, drogadicto (segundo veicularam os meios de informação), os demais foram precursores, cujo desassombro levou-os à iniciativa de que outros compatriotas se abstém por timidez e, máxime, por temor da reação policial. Eles exprimiram sintoma de novas realidades na sociedade brasileira.

A nudez repugna a certos velhos, educados há cinquenta, sessenta e mais anos, em pretérito de valores e de mentalidades que se anacronizaram. Também repugna a certos religiosos, cuja gimnofobia resulta dos dogmas que professam. Nem os arcaísmos mentais nem os sectarismos devem balizar a ação policial (sobretudo, no caso da repulsa religiosa, à luz da laicidade do Estado brasileiro).

No âmbito da liberdade individual, velhos (e gente de todas as idades) e religiosos (crentes de quaisquer religiões) dispõem da faculdade de enfarpelarem-se com toda a austeridade. Não dispõem da autoridade de imporem-na a quem não compartilha das suas convicções nem é justo o Estado, ao legislar, ao judicar, ao atuar junto do cidadão (é o caso da polícia) pautar-se por critérios de minorias, que restringem, injustificavelmente, as liberdades, seja da maioria, seja de outras minorias.

É papel também do Estado observar o estado de coisas que se apresenta, reconhecer nele tendências sociais, respeitar os cidadãos, adaptar-se à evolução da sociedade brasileira e revogar o infeliz artigo 233 do Código Penal (ato obsceno).

Na França, em 1994, revogou-se o crime de atentado ao pudor, análogo ao deste artigo e substituiu-se pelo de exibição sexual.

É diferente a nudez pura e simples, da exibição sexual. Estar nu não equivale a exibir-se eroticamente, mesmo porque tal exibição é suscetível de ocorrer em vestidos. Presumo que em outros países europeus o tratamento legal da questão seja igual ou análogo.

Enquanto o nudista não cometer importunação, enquanto limitar-se a estar nu como se estivesse trajado, é indiferente, é irrelevante a sua nudez; nestas condições, ela diz respeito ao próprio e não a outrem, e não à polícia nem ao Código Penal.

Atualize-se, a lei, quanto aos costumes. Entenda ela a evolução dos comportamentos. Compreenda o anseio por liberdade. Enxergue inocência onde ela existe.

Não tolha, o Código Penal, a liberdade dos cidadãos. Não veicule valores de que a sociedade se vai dissociando. Não confunda nudez natural com impudor. Não imagine crime nem maldade onde existe inocência em face da lei e das intenções. Não reprima o que a lei não proíbe.

Proteja o Código Penal o cidadão pacífico, no exercício legítimo das suas liberdades e dos seus direitos; defenda-nos de quem nos mata, nos estupra, nos rouba, nos ludibria, de quem nos causa, realmente, mal. Não reprima os nudistas, que, estes, são cidadãos de bem, como quaisquer outros vestidos.

Por todos estes motivos, considero oportuno e bem-vindo:

1-revogar-se o artigo 233 do Código Penal,

2-autorizar-se o desnudamento das mamas em todas as praias do Brasil (monoquíni, vulgo “topless”),

3-autorizar-se a nudez integral em todas as praias do Brasil ou, pelo menos, facilitar-se a multiplicação de praias de nudismo ou a delimitação de áreas nudistas nas praias têxteis (de gente semi-vestida).

Agora,preste muita atenção nisto: em Direito, o que não está proibido, está permitido. Não há, no Direito brasileiro, nenhuma regra que proíba a nudez em público; logo, ela é permitida. Sim, é permitido estar nu em público no Brasil. Há o artigo 233 do Código Penal, que pune o crime de ato obsceno. Obsceno é o que envolve sexualidade afrontosa, conforme os padrões sociais predominantes. Estar nu não é ato, é condição; estar nu não é obscenidade, é naturalidade. A polícia não deve e não pode reprimir quem anda nu em público. Quando o faz, ela atua como agente de mentalidade arcaica, veicula valores sem sentido, reprime indevidamente o cidadão na sua liberdade e pratica, ela, polícia, o crime de constrangimento ilegal, ou seja, obriga a cidadão a fazer o que a lei não o obriga (encobrir-se). Foi o que eu disse, por escrito, aos comandantes da PM do PR e da Brigada Militar do RS.

Demais, o que seja obsceno varia com as mentalidades. O Código Penal brasileiro data de 1940; estamos em 2016: os critérios não podem ser os mesmos. A polícia não pode reprimir, por alegada obscenidade, em 2016, como se estivessemos em 1940.

Na Inglaterra, Alexandre Sutherland Neill (1883-1973) criou a escola Summerhill, em que os próprios alunos criavam as regras porque nela se regiam (auto-regulação). Laico, o seu ensino era destituído de inculcação religiosa (pelo que os seus  alunos desenvolviam-se fora do conceito de pecado e do sentimento de culpa que ele origina) e fora da repressão da masturbação e da nudez, pelo que os seus alunos adquiriam a saúde psicológica de que tão freqüentemente eram privadas as crianças e os jovens educados sob a censura da sexualidade, em geral, e sob a obrigação de ocultarem o seu corpo.

A nudez, observava Neill, jamais deveria ser desencorajada. O bebê deveria ver seus pais despidos, desde o princípio”. Em Summerhill,  prevalecia “atitude absolutamente natural” (Liberdade sem medo, p. 213. São Paulo, Ibrasa, 1977), acerca da nudez, em resultado do que, os seus alunos não desenvolviam curiosidade mórbida por corpos (femininos nem masculinos), não se tornavam mixoscopistas, não se envergonhavam diante do desnudamento alheio, não  se vexavam por serem vistos nus por outrem.

Um casal, pais de filhos crianças, adotaram, com hábito, o desnudamento doméstico, ao que A. Neill observou à mãe: “A nudez no lar  é excelente e natural. Seus  filhos, mais tarde, evitarão muito o sexo doentio.  É improvável que um deles se torne um `voyeur´, pois que terão visto tudo quanto há para ver” (Liberdade sem excesso, p. 64. São Paulo, Ibrasa, 1976).

É hora de os brasileiros perceberem a falta de sentido da mentalidade anti-corpo; a ausência de inerência entre nudez e sexualidade, entre sexualidade e culpa, entre nudez e vergonha do corpo, entre velamento das mamas e do pênis e moralidade. É altura de os brasileiros descobrirem o direito à nudez natural, de manifestarem-se a respeito, por palavras e gestos.

A nudez natural não implica a exposição de corpos belos, esbeltos, de homens musculosos, de mulheres vistosas; da exibição de padrões de beleza nem de pênis avantajados, compridos, grandes. Assim como não é questão de sexualidade, tampouco o é de consagrar padrões de beleza nem de ostentar pênis grandes. Na nudez natural, é indiferente o tamanho do pinto e a beleza do corpo – dimensão fálica e padrão de beleza não são valores do nudismo; são-no da sociedade machista, de homens de mentalidade tosca, que identificam tamanho de pinto com masculinidade, e da sociedade fútil, que julga as pessoas pelas aparências. No nudismo não é assim.

Se gostou, divulgue esta idéia. Vamos agitar, tomar iniciativas, tomar atitudes, promover manifestações.

(Quanto às fotografias, não é questão de se preferir homens ou mulheres vestidos ou nus ou semi-nus; não é questão de gênero nem de sexualidade.
É este, precisamente, o ponto: não é questão de sexualidade (homossexualidade nem heterossexualidade) e sim de naturalidade. Homens e mulheres, mulheres e homens, nus, são igualmente naturais; não se trata da atração erótica e sim, precisamente, de retirar a erotização do nu: eis a grande lição da Alemanha nua.).

(Em ginásios de musculação de Curitiba, os homens despem-se nos vestiários, porém naõ de todo: exceto a cueca, com que ingressam na cabine do chuveiro. Os chuveiros constituem compartimentos em que cada indivíduo acha-se isolado dos demais. Ninguém vê ninguém no banho. Os homens retiram-se da cabine do chuveiro de cueca: não querem expor a sua genitália. Será, talvez, porque se masturbam durante o banho e desejam ocultar a tumescência do seu pênis, efeito para o qual a cueca é providencial. Provavelmente, contudo, não é por isto que entram na cabine de cueca e dela se retiram, também de cueca, e sim porque prevalece, em Curitiba, a pudibundaria, a necessidade de os homens ocultarem o seu corpo, a vergonha da genitália, a genitália como parte indecente. No vestiário masculino, entre homens, os homens ocultam a genitália uns dos outros. Parece convento. E tal se passa em , em Curitiba, onde é comum a gabolice de é cidade “européia”. “Européia” com mentalidade e usos de terceiro mundo. Nos E.U.A. e alhures, os chuveiros são abertos, destituídos de paredes entre os seus usuários que, assim  vêem a nudez do seu vizinho, com naturalidade, sem a introdução, mesmo inconsciente, de que certas partes do corpo devem ser ocultadas. Menos mentalidade bíblica e mais naturalidade. Curitibano atrasado).

Vide, da minha autoria, “Mamas ao vento e pênis à mostra”, “A nudez é inocente”, “A favor da nudez” (em que trato, também do artigo 233 do Código Penal), “Envergonhar-se do próprio corpo é obrigatório!? Prédica nudista” (sermão de pregador nudista), todos neste sítio. Procure em “Nudez.”.

Minha carta ao comandante da Brigada Militar do RS, em prol dos nudistas que andaram em público em Porto Alegre (esta carta é igual à que enviei ao comandante da Polícia Militar do PR): aqui.

Minha carta à Ministra dos Direitos Humanos pela revogação do artigo 233 do Código Penal e em favor da liberdade de nudez aqui.

“A favor da nudez”:  https://arthurlacerda.wordpress.com/2014/11/18/a-favor-da-nudez-2/

Esse post foi publicado em Nudez. Naturismo..

 

Como já dizia o cantor:

“Hiprocrisiiaa… eu tenho uma pra viveer! Pra viveer…”

Ops, acho que não era bem isso.

Mas a paródia à Ideologia, de Cazuza, ainda cabe. Em tempos, em que o dualismo de ideologias talvez só tenha estado tão em voga (e tenho cá minhas dúvidas) na Guerra Fria, pessoas trazem consigo, física e atualmente também virtualmente, discursos ideológicos cada vez mais cheios de sentimentos, outras de conteúdos inclusive. Mas na prática a coisa não é bem assim.

Vale lembrar a regra máxima do respeito, ou da liberdade:

Minha liberdade termina quando começa a liberdade da próxima.

E como tenho me revoltado muito com os discursos vazios e a hipocrisia do dia-a-dia, fiz uma lista de exemplos pra ver quantos nos identificamos. Não que eu seja perfeito. Não que não tenhamos intenção de fazer uma coisa mas consigamos agir exatamente ao contrário de vez em quando. Não que não sejamos ignorantes e diversas vezes nem percebemos a hipocrisia em nosso discurso. Mas temos que ficar ligados e por isso fiz esta lista: pra galera se antenar. Existem hipocrisias de todos os tipos e magnitudes. Vamos lá?

Hipocrisias no trânsito:

  • Reclamar de engarrafamento mas ir de carro pro trabalho.
  • Reclamar do trânsito parado mas estar sozinho dentro do carro.

Hipocrisias ambientais:

Tem nível superior ou está na faculdade, portanto já estudou pelo menos 12 anos da vida e ainda:

  • não sabe apagar a luz ao sair dos ambientes;
  • não sabe guardar bituca de cigarro pra jogar na lixeira;
  • aliás, nem sabe jogar lixo seco nas lixeiras e ainda joga no chão, ainda mais as feitas para recicláveis.

Outras ambientais:

  • Fazer campanha para abaixo-assinado para salvar as baleias, mas jogar plástico nas ruas ou comer carne.
  • Tem dó de cachorro ou animais abandonados ou de maltratos a animais (cães, cavalos, gatos), mas come carne de animais criados confinados.
  • Se preocupa com a preservação dos mares, e/ou tem adesivo no carro “Destrua as ondas, não as praias”, mas come peixes (que foram pegos em pesca industrial e levam à maioria dos bichos aquáticos à extinção).

Hipocrisias Sociais:

Pessoas em situação dominante, ou não oprimidas tomando decisões importantes pelas oprimidas sendo que estas estão presentes.
Bora desenhar, digo, descrever:

  • Homens brancos tomando decisões que afetam mulheres negras;
  • Homens hétero cisgênero tomando decisões para mulheres ou para pessoas não cis (trans, gays, bi);
  • Ricos tomando decisões que afetam aos pobres;
  • Religiosos tomando decisões que influenciam na liberdade de pessoas não religiosas.

Outras sociais:

  • Policiais enfrentando/batendo em civis que se manifestam em luta pelos direitos dos policiais.

LINKS – LEIA TAMBÉM:

Páginas interessantes sobre o assunto, com outras opiniões. Leituras complementares. (Os links a seguir não necessariamente representam a opinião deste autor, alguns inclusive contradizem. Tem, portanto, função de enriquecer a discussão e fazer você desenvolver sua própria opinião.)

1.

 

Nesta madrugada recebi um convite de um amigão, ambientalista mas partidário do governo municipal e federal.

Em seguida respondi ao convite, pois se tratava de um projeto de hortas urbanas para baixa renda, algo de veras interessante visto o prefeito que temos, mesmo eu questionando os meios. Eis que inicia uma conversa que durou uma horinha, e a transcrevo abaixo pois considerei mega didática, explico-me:

Se eu tivesse criando um texto dramatúrgico com esse tema querendo mostrar o estereótipo da visão de um governante versus a visão de um ecoanarquista, não sairia tão bom!

Segue o texto, o nome e a foto do amigo serão ocultados por razões óbvias, pois realmente não vem ao caso.

SEX 2/6/2017 23:48

Amigo
Amigo

 

SEGUNDA-FEIRA (05 de Junho de 2017), às 14:30, acontecerá a Assinatura do Decreto de Criação do Programa Municipal de Agricultura Urbana. A cerimônia também será na Sala de Reuniões do Gabinete do Prefeito (Rua Tenente Silveira, 60, 5º andar – Centro).

SÁB 3/6/2017 02:09

Marcelo
Muito legal
Demais mesmo. Obrigado
Amigo
Lembrei de ti
Vais lá
Marcelo
Verei a possibilidade. Tenho interesse sim
Amigo
Legal
Acabei de ter uma decepção Estudando culinária
Marcelo
Hahaha que passou?
Amigo
Descobri que o Califórnia Roll
Foi inventado em Vancouver
Marcelo
Hahahaha
Amigo
Esse mundo 50% das coisas são fake mesmo
Marcelo
E nem existia um original de referência pra chamarem de tipo
É a clássica piada que fazem do chapéu Panamá
Que não é de lá
Amigo
Hahhaa
Mas esse eu achei que era mesmo
Marcelo
Pois é… Coisa estranha. Na Europa valorizam muito a origem, que dá nome ao alimento. Na América querem ganhar em cima do que der dinheiro. Então o direito autoral surgiu com o capitalismo selvagem americano (do norte)… Faz todo sentido. Isso é muito raro na europa
Ao menos calabresa vem da Calábria, champagne da França e por aí vai… Ainda.
Amigo
Japan to honour Vancouver chef credited with inventing California roll
The Japanese-Canadian sushi chef who is said to have invented the California roll will be honored Thursday by the Japanese government for his role in promoting Japanese cuisine.
ctvnews.ca
Marcelo
Hahaha
Mas será que a pizza Califórnia foi inventada lá?
Se sim pode ter sido só homenagem, pelo mais que eu não veja relação
Amigo
Pse
Tava lendo essa semana sobre a baunilha do cerrado
Tu já viu?
Baunilha do Cerrado – Slow Food Brasil
O Slow Food é um movimento internacional que reúne pessoas apaixonadas por gastronomia, celebra o alimento de qualidade e o prazer da alimentação, conheça a atuação do Slow Food no Brasil. Fazem parte dessa rede: cozinheiros, pesquisadores, comunidades de produtores de alimentos etc. É um movimento…
slowfoodbrasil.com
Marcelo
Sim, tô ligado. Não li mas já havia estudado sobre e ouvido a respeito
Tivemos uma palestra nesta semana com uma amiga, colega, que trabalha com o slow food e falou do projeto Arca do gosto
Esse sim é uma puta ótima referência
Amigo
Me.conta mais
Marcelo
Não sei muito, mas é coisa do slow food, pela preservação e valorização dos pratos e tradições locais
Usando alimentos endêmicos
Amigo
Legal
Eu estava estudando temperos e daí descobri a baunilha do cerrado
Marcelo
Seria como criar um projeto pra salvar o berbigão da tapera
Amigo
Dá 300 a 400 kilos por hectare
O kilos está 250 dólares
Marcelo
Mas esse não tem salvação, visto que o aterro da baía que levou ele a extinção
Marcelo
Claro que pra capitalista o valor é o que importa. Já pra naturalista é a valorização da genética endêmica através da cultura local. O ambientalista vai querer valorizar o que é de lá ao preço que for. O capitalista vai levar sementes e tentar produzir igual em outro local mais barato, e assim criar o tipo comercial. De preferência produzindo em grande escala, e fazendo baixar o preço, e levando a comunidade original à pobreza, consequentemente a extinção do recurso que deu nome ao produto. Essa é a diferença entre um naturalista e um capitalista.
Marcelo
É por isso que o slow food luta pela valorização do lado NO local
Amigo
Eu estava pensando em plantar baunilha para aumentar a renda de famílias carentes
Marcelo
Pra famílias carentes tem muitos produtos rentáveis. Se aumentar a produtividade vai cair o preço
Pra famílias carentes ensine a plantar agrofloresta biodiversa onde terão todos os alimentos que precisam pra viver, e não commodities
Onde ficarão independentes do mercado em caso de crise e não reféns dele caso o preço caia.
Amigo
Mas a conta que eu fiz era
1 hectare
Daria uns 230 mil de baunilha
Por baixo
Da de pagar todo o projeto
Contratar uns dois agrônomos uns dois botânicos
E ainda dar uma bolsa de 1500
Para 80 adolescentes
Marcelo
Mas pra produzir isso precisa de uma floresta preservada, um clima igual o de lá, e se der certo vai baixar o preço, e levar as famílias de lá a terem que cair nesse papo e destruírem a floresta pra plantar algo que de dinheiro, assim o ciclo se perpetua
Amigo
Da de plantar no sertão do Peri
Eu acho
Marcelo
Pense localmente, sempre
Valorize o local
Amigo
Tinha um francês que plantava baunilha lá.
Foi embora não sei pra onde
Marcelo
No sertão do peri tem uma cultura local. O que ela tem de diferente. Valorize isso e não traga de fora
Amigo
Da de fazer os dois né
Sempre monto projetos que não. Dependem.do governo
Que são sustentáveis por si
Marcelo
Ainda assim, se pensas na comunidade, no social, não pense no retorno financeiro
Se são sustentáveis não dependem de dinheiro
É contraditório
Amigo
Eu não acho
Tudo.tem.custo
Quanto um botânico vai cobrar
Marcelo
Isso é o que dizem economistas. Eles querem que tenha, senão não terão emprego, rs
Custo sempre tem. Financeiro que não necessariamente
Amigo
Quanto um botânico vai cobrar
Tu consegue 8 instrutores de graça por. 2 anos para um projeto desses ?
Marcelo
Não pense quanto que ele vai cobrar. Pense: se a comunidade local já sabe fazer , pra que vai precisar um botânico? E depois, o que eles precisam pra viver? Esse é o custo. A sustentabilidade está em fazer o local produzir tudo o que precise pra viver
Amigo
6.1. Impactos Econômicos Promoção da autonomia financeira dos beneficiários através da geração de renda: por mais que durante a participação no projeto, os hortelãos ainda dependam de subsídios da Prefeitura com a ajuda financeira, de materiais e sementes, ao atingirem a emancipação, os sujeitos começarão a gerar renda através da venda de sua própria produção. Desta maneira, o projeto visa a transformação de cidadãos que antes eram considerados uma desvantagem econômica ao Governo por dependerem de verbas públicas, em pessoas ativas economicamente, em potenciais consumidores de produtos e serviços, contribuindo para a dinâmica econômica urbana. Há diminuição de gastos com a alimentação, uma vez que os próprios hortelãos consomem os excedentes da produção da horta. Além disso, o projeto oferece empregos dentro da comunidade, não havendo necessidade de grandes deslocamentos (o que é bastante atrativo numa cidade onde os transportes públicos são ineficientes e o trânsito se encontra cada vez mais intenso) e acessíveis aos moradores. Com isso, também há a menor procura dos jovens para entrar no mercado do tráfico de drogas, onde na equipe de Manguinhos há jovens que trabalhavam com esta atividade e buscaram o emprego de hortelão no projeto. Estímulo à economia solidária: desde o início do projeto, os beneficiários são inseridos em uma nova forma de gestão de trabalho e divisão dos lucros de base associativista e igualitária. Os hortelãos realizam a autogestão da horta e o método de trabalho em mutirão. E mesmo durante o desenvolvimento da horta com o aparecimento de problemas e divergências na equipe, os gestores do PHC buscam soluções em conjunto com os hortelãos, utilizando-se dos saberes e experiência dos integrantes e fortalecendo os laços de cooperação.
Marcelo
E não no valor financeiro disso
Amigo
onde o cenário de extrema violência, desigualdade econômica e descaso político influencia na formação de suas opiniões, percepções de mundo e personalidades. Então, princípios como cooperação, altruísmo e igualdade são de mais difícil concepção e desenvolvimento para estas pessoas que convivem em um ambiente hostil, e dentro de uma sociedade que estimula o individualismo e a competição, cujo cenário político é marcado pela corrupção, do que para indivíduos que vivem em um ambiente harmonioso com referências positivas como solidariedade e cooperação.
Marcelo
É isso aí. Mas tudo melhora justamente por melhorar a qualidade de vida e independência.
Marcelo
A diferença é que um projeto de verdade quer a independência e vai fazer isso com toda a comunidade. Um político (queiro) não quer que uma comunidade fique independente dele, senão vai perder votos. Isso pode acontecer em nível micro, por exemplo um líder de comunidade. É por isso que os contatos pra iniciar um projeto desses não podem ser com as lideranças comunitárias, e sim diretamente com o povo. Mas isso dá muito mais trabalho.
Marcelo
Mas a ideia é ótima, é por aí mesmo.
Amigo
Então
Eu calculei 4 profissionais acompanhando a comida do por 2 anos
A comunidade por 2 anos
Até eles tocarem sozinhos
Só de agrônomo e botânico dá uns 15 mil mês
Material uns 20 mil mês
Fora as bolsas
Marcelo
Tudo bem se quer pensar assim, mas se quer a sustentabilidade pense em valorizar um produto e cultura local, e a diversidade do lugar, em vez de importar outra cultura, entende? Vise a autonomia completa
É não apenas financeira
Amigo
Tu já pensou a Alemanha sem batata?
Eu sei Marcelo
Mas.tem que começar
E o melhor jeito é ser viável economimente
Marcelo
É um ponto de vista de alguém que acredita no capital. Normal. Se fosse o certo não haveria fome. As pessoas felizmente não comem dinheiro, e por isso não é sustentável.
Cooperativas deixam de dar certo qdo dão lucro a alguém, não é a toa.
Amigo
Mas tu iria trabalhar lá sem ganhar nada
?
Marcelo
Elas passam a eleger sempre os mesmos e deixam de ter o espírito real de cooperação…
Claro, Não precisa de dinheiro pra viver. Preciso de comida, casa, transporte, diversão… E não dinheiro. Se monetarizar isso, acaba a verdade e passo a viver de ilusão. Se meu trabalho (que não é a mesma coisa que emprego) me der tudo o que preciso não precisarei de dinheiro.
Entende? Inverta a lógica. Isso é sustentável de verdade.
Amigo
Sim Claro
De economia já li quase tudo
Inclusive to vendo a regulação da bitcoin
Em Brasília
Mas falando especificamente desse projeto
Marcelo
Rs
Amigo
Se tiver um jeito de fazer sem dinheiro eu faria
Eu por exemplo não vou ganhar nada
Marcelo
Esse povo que vive do econômico, rs
Já ganhas, como acessor, imagino
Amigo
Agora se tu conseguir voluntários formados comprometidos
Marcelo
Se não vai ganhar nada quer dizer que vai deixar de ser acessor?
Amigo
É assessor
Eu não
Sou funcionário concursado
Marcelo
Cara, se buscar local, se consegue. Mas se deixar entre a liderança local existente, estes vão colocar o amigo, pois querem manter o poder… E não o mais capacitado. Aí o projeto vira um natimorto.
Então, melhor, vc sendo concursado já ganha teu salário. Isso é bom. Mas já estás fazendo isso em hora extra imagino?
Amigo
Como assim?
Marcelo
Entende que o que importa não é o dinheiro?
Rs… A conversa vai longe.
Amigo
Já falei lá em cima que entendi
Eu sei que até novembro
Marcelo
Dá vontade de copiar ela e publicar. Acho que está bem didática.
Amigo
Que implementar um projeto
Marcelo
Acho muito massa isso
Amigo
E tirando eu
Todo mundo quer cobrar
Hahaha
Até esses caras se ônus
Marcelo
Quero só te ajudar a pensar numa forma que teu projeto de certo, percebe?
Amigo
Ongs
Então
São dois anos
Até a população tocar por si
Marcelo
Sim, entendo. Eles estão dentro de um sistema que pensa assim
Amigo
Até la
São dois agrônomos dois botânicos
4 peões auxiliares
Material de trabalho
E para não depender eternamente de verba ou doação
Marcelo
Mas só te digo uma coisa. Não entre com um produto definido. Deixe, de verdade, que a comunidade local decida com o que eles querem trabalhar
Amigo
Tem que ter algo que de retorno
Mas não precisa ser só aquilo
Eles podem plantar mandioca. Maracujá. Temperos
Mas tem que ter algo que de de fazer o projeto se manter por si
Marcelo
Claro.
Marcelo
Mas o se manter não precisa ser financeiramente. Talvez no começo, já que estamos num sistema que ainda não sabe pensar diferente, tem que ser. Mas o objetivo final não pode ser esse, e sim o da independência, da soberania alimentar comunitária sem importar nada de fora. Só assim eu acredito que será viável de verdade no futuro. Pq além disso, o resto é literalmente lucro.
Marcelo – 03:34
Boto fé nas tuas intensões, e espero que o que falo, falamos, ajude em algo. 😉
Altas conversa meu amigo. Mas meu braço tá véio pra teclar tudo isso no celular… Vou dormir. Muito obrigado pela inspiração, bom papo mesmo pra madrugada!

 

 

Pessoas,
se amem antes de qualquer coisa.

Isso é muito importante, mesmo.

O quanto vejo de gente querendo ser amada pelo mundo afora mas não se aceitando do jeito que veio ao mundo.
Antes de mudar a si, se aceite.
Então mude apenas para variar, pois é sempre bom mudar.
Mas até mudar é bom que seja com consciência,
senão podes achar que está mudando e só está indo na onda.
Pra mudar também tem que se conhecer, saber como se é.
Então se aceitar, gostar de si.
Depois disso, mude!
Se colore, se raspe, se pele, se esfole, se tatue, cicatrize-se, transforme-se como quiser.

Então experimente-se!
Antes de pintar ou descolorir o cabelo, de virar loiro ou grisalho (convenhamos, fazer luzes é agrisalhar-se), antes de alisar ou fazer cachos ou dreads, se aceite.
Todo mundo tinha que ficar careca, zero, uma vez na vida. Assim se conhece de verdade.
Todo mundo tinha que raspar tudo,
e também deixar todos os pelos do corpo crescerem ao seu máximo,
uma vez na vida ao menos,
até pra se saber como se é de verdade.

Todo mundo tinha que passar uma semana ou mesmo uns dias sem tomar banho,
pra sentir seus verdadeiros cheiros.
E então fazer uma dieta alimentar e de hábitos superabsurdamentemegahipersaudáveis por um mês,
pra saber como se sente assim, o que isso altera nos teus sentidos.

Todo mundo tinha que morar sozinho,
completamente sozinho,
Sem namorados, sem amigos, sem parceiros, sem faxineira,
pelo menos um ano de sua vida.
Pra se conhecer, pra ter carências, pra fazer bobagem, pra aprender a se virar, pra perceber que se é aquilo que seus pais se queixavam e você negava, pra crescer.

Todo mundo tinha que se masturbar mais,
pois só se tocando, amando e se conhecendo vai saber amar os outros, perceber os outros.
Fazer isso de formas diferentes, sem frescuras, sem pudores, sem medos, mesmo que com cuidados.

Todo mundo tinha que viajar completamente sozinho por pelo menos um mês pra lugares desconhecidos e sem pacote turístico,
pra conhecer seu verdadeiro eu, pra testar sua ética e seu discurso.

Todo mundo tem que escrever um livro, criar um filho e plantar uma árvore, entre tantas outras coisas na vida.
Não deixe a vida passar não…
se não tem tempo, agende-se,
pois senão a vida passa e não aprendeu a se amar.

(marcelo venturi inspirado, antes de voltar pra tese)

A permacultura tem três princípios éticos e vários princípios de planejamento, que pelo cocriador da permacultura, David Holmgreen, seriam em 12 que nos ensinam o que deve ser percebido e estimulado ao se planejar um ambiente humano visando sua permanência, durabilidade.

Já os princípios éticos da permacultura seriam:

  1. Cuidar da terra,
  2. Cuidar das pessoas, e
  3. Compartilhar excedentes (inclusive conhecimentos) OU Partilha justa OU Limites ao consumo OU … ??????????????????????????????

Os princípios éticos, em alguns momentos já foram considerados em quantidade de quatro justamente pelas polêmicas relacionadas ao terceiro princípio.

Então aqui traduzo um artigo que trata justamente desse polêmico terceiro princípio ético da permacultura.

 


 

O controverso terceiro princípio ético da permacultura

por Tobias Long (?), tradução de Marcelo Venturi, do artigo original postado em 6 de abril de 2017 pela World Wide Permaculture.

O coração da permacultura é enraizado na adesão na filosofia dos seus três princípios éticos. Os dois primeiros, Cuidar da Terra e Cuidar das Pessoas, têm sido amplamente aceitos pela comunidade pelo que eles são – simples e lógicos. A terceira ética, no entanto, tem sido objeto de algum debate[1] entre os praticantes de permacultura por muitos anos.

De fato, a discussão em curso sobre as várias interpretações desta terceira ética pode oferecer alguma explicação sobre por que a filosofia da permacultura não se tornou um conceito mais popular – apesar de ter sido abraçada por comunidades e profissionais em todo o mundo.

Limites e equidade

Inicialmente, a terceira ética foi introduzida como “Estabelecer Limites à População e ao Consumo“, mas tem sido expressa em uma ampla variedade de maneiras diferentes desde então: “Partilha Justa” (Fair Share), “Limitar o Uso de Recursos e População“, “Compartilhar Excedentes” [inclusive conhecimentos] e “Viver com Limites“. Embora exista, obviamente, uma sobreposição entre essas expressões, a ideia de que a terceira ética é um pouco aberta à interpretação deixa um pouco de interrogação quanto à aplicação desses princípios no design da permacultura.

O significado por trás da terceira ética, de acordo com o Permaculture Designer’s Manual escrito por Bill Mollison, é a teoria de que “ao governar nossas próprias necessidades, podemos definir recursos à parte para focar os princípios anteriores”, referindo-se às duas éticas anteriores da permacultura. No entanto, quando a frase é abreviada apenas para a ideia de “estabelecer limites para a população”, pode levar a mal-entendidos – particularmente por militantes da justiça social, que levantaram preocupações em torno de genocídio e eugenia que poderiam ser falsamente encontrados nesta frase.

Na década de 1980, o pioneiro da permacultura dinamarquesa, Tony Andersen, reformulou a terceira ética como “Partilha Justa” (Fair Share), em um esforço para evitar qualquer discussão sobre esses conhecimentos controversos. Mas enquanto esta frase simples soa agradável quando combinada com as duas outras éticas, deixa para fora uma das idéias principais atrás deste terceiro princípio ético – o conceito de projetar dentro dos limites.

População vs Uso de Recursos

Os ecologistas definem a “capacidade de carga” como o tamanho da população que um ambiente pode sustentar durante um período de tempo, levando em consideração os vários recursos disponíveis nesse ambiente. Quando a quantidade de recursos requerida por uma espécie for igual à quantidade de recursos disponíveis, a capacidade de suporte é atingida. Se a população continuar a aumentar e a quantidade de recursos não, a natureza corrige o desequilíbrio, garantindo que as taxas de mortalidade subam acima das taxas de natalidade – deixando a população de volta abaixo da capacidade de carga.

Este é o desafio apresentado pela terceira ética da permacultura – viver dentro dos limites, para manter nossa população global e o uso de recursos sob a capacidade de carga. À medida que a nossa população aumenta, haverá obviamente menos recursos disponíveis para cada indivíduo. Permacultura tenta usar o design sustentável para determinar um uso médio dos recursos que pode ser mantido por um longo período de tempo, o que é parte da teoria por trás dessa terceira ética controversa.

À medida que uma escassez global de alimentos surge como resultado do impacto negativo da mudança climática sobre as safras, a ideia de capacidade de carga e de viver dentro dos limites torna-se ainda mais necessária. No entanto, o maior problema que enfrenta o nosso planeta não é necessariamente uma crescente população nos países menos desenvolvidos, mas sim o excesso de consumo das populações ocidentais o que mais contribui para o nosso desequilíbrio no uso dos recursos.

Esta terceira ética tenta abordar esta questão, confrontando uma das partes mais feias da natureza humana: a ganância. É esta ganância que nos leva a acumular recursos muito além do que poderíamos usar – mesmo enquanto os outros lutam para prover o suficiente para si ou para suas famílias. Isso não só é errado, como é insustentável no longo prazo.

Permacultura e Socialismo

Parte dessa terceira ética significa entender que a permacultura inclui a ideia de que as necessidades básicas de todos devem ser atendidas – incentivando a justiça não apenas entre os humanos, mas também entre a humanidade e outras espécies. Mas mesmo essa interpretação está sujeita à visão de mundo de um indivíduo. Pessoas com tendências mais socialistas ou comunistas poderiam levar esta ideia a dizer que “se você fizer mais do que você precisa, você deve dar a outros – incluindo aqueles que não fizeram nada para ganhá-lo“.

Embora o altruísmo seja certamente encorajado, a história mostrou que os conceitos governantes do socialismo e do comunismo foram insustentáveis. A iteração desta ética como um dos princípios motrizes da permacultura pode explicar em parte por que a filosofia não tem sido mais amplamente abraçada – ela promove o pensamento de que, para praticar a permacultura da maneira como Mollison e cofundador David Holmgren pretendiam, eles deveriam dar todos os seus pertences e viver em uma comuna com outros permacultores.

Esta ideia foi mesmo levada um passo adiante, teorizando que qualquer um dos excedentes produzidos através do planejamento em permacultura deve ser compartilhado – incluindo o conhecimento. Em vez de aceitar pagamentos por ensinar, consultar ou escrever, essas informações devem ser distribuídas gratuitamente. É uma boa ideia, mas é difícil convencer as pessoas a colocar sua energia e recursos em um projeto onde as recompensas serão compartilhadas com pessoas que não fizeram nada para ganhá-los.

Permacultura não é socialismo[2]. Os praticantes não são obrigados a viver em uma comuna, trabalhando de graça e dando o seu excedente. Permacultura não impede você de ganhar uma vida decente – na verdade, permacultura pode trazer aos praticantes todos os tipos de benefícios, incluindo financeiros. Mas enquanto esta crença [na necessidade dependente do dinheiro] continuar a permear a sociedade dominante, será difícil para os permacultores trazerem esta ciência para as massas.

Andando em frente

Em vez disso, esta terceira ética controversa deve agir como uma luz orientadora para ajudar os indivíduos a examinarem seu uso de recursos com mais cuidado – atentos para reduzir seu consumo e enfrentar o desafio social de compartilhar não só o excedente, mas também o trabalho e a produção. Permacultura é sobre comunidade, sobre resiliência e sobre sustentabilidade.

Mais pessoas estão começando a adotar o conceito de “Retorno do Excedente” como a expressão da terceira ética[3], o que pode estar mais de acordo com o significado original desse princípio. Em vez de criar desperdício, permacultores são incentivados a devolver o excesso de volta para onde ele veio. Isso pode se aplicar em um sentido ambiental através de práticas como cortar e soltar ou permitir que o produto amadurecido para decompor e fertilizar o solo.

Mas o conceito também se aplica a outros aspectos da permacultura, incluindo seu investimento de tempo, trabalho e recursos. Retornos sobre esses investimentos, financeiros ou de outro tipo, podem ser direcionados e colocados de volta em sua prática de permacultura – garantindo sustentabilidade e resiliência.

Quando aplicadas à prática da permacultura, essas éticas devem ser usadas para orientar o tipo de planejamento estratégico que nos ajudará a trabalhar em direção a um futuro onde não nos preocupamos apenas com nós mesmos, mas também com outras populações humanas e não humanas e até com a própria Terra.


Para Saber Mais Sobre:

World Wide Permaculture e Permacultura UFSC

Facebook: https://www.facebook.com/worldwidepermaculture/ e
https://www.facebook.com/groups/Permacultura.UFSC/

Publicação original: http://worldwidepermaculture.com/controversial-third-ethic-permaculture/

Republicada também em: http://permaculturenews.org/2017/04/13/controversial-third-ethic-permaculture/

Notas do tradutor

[também entre colchetes ao longo do texto]:

[1] Assim como é comum ocorrer com todas as polêmicas que envolvem a simplificação das definições das ciências humanas. Os dois primeiros princípios éticos remetem, indiretamente, às questões ambientais e sociais, e este terceiro remeteria à sustentabilidade “econômica” real, e não àquela defendida pelo mercado através do falacioso tripé da sustentabilidade (social, ambiental e econômica), como é bem questionado por Ignacy Sachs, Carlos Walter Porto-Gonçalves e outros autores.

[2] Permacultura sem dúvida não é socialismo nem comunismo, muito menos capitalismo – já que esse se baseia na competição e num crescimento sem fim. Eu acredito que como uma lógica ambiental e social assim proposta, ela seja muito mais próxima de um cooperativismo, ou um terceiro caminho ainda mais equilibrado e que remete ao anarquismo, sempre consciente, talvez com uma certa influência de Kropotkin, com sua “Ajuda mútua”, e outros autores e que seria uma ecologia social aplicada de forma consciente a direcionar a sociedade às relações ecológicas positivas, como é o mutualismo.

[3] Eu particularmente, quando ministro as aulas referentes aos princípios sempre apresento pelo menos duas formas: Partilha Justa – que é o que está descrito nas figuras de David Holmgren e por isso utilizo desta forma – e Compartilhar excedentes, inclusive conhecimentos que é uma forma que simpatizo por considerar as palavras e linguagem mais compreensível. A expressão em inglês Fair share, apesar de literalmente significar partilha justa, as vezes me remete a outro uso não tão libertário mas mais capitalista que é o comércio justo ou mercado justo. Mas isso é apenas uma questão de interpretação minha e não seu significado real. E a expressão Retorno do excedente não sei se em português repassa tão bem o que quer dizer este princípio e que não seja dito pelo Compartilhar excedentes, mas por outro lado apresenta uma questão bem mais ambiental que é a questão do deixar o que é da natureza lá, caso não seja usado e assim abre realmente uma nova interpretação e ação pra maioria dos permacultores numa visão bem mais preservacionista que conservacionista. E será que seria esse o nosso papel? Será que precisamos tanto assim? Vale a reflexão. Isto é, mesmo com este texto explicando bem as questões ao redor deste terceiro princípio ético creio que ainda não chegaremos a um consenso.

[4] Cuidados Futuros (fonte: Delvin Solkinson. Gaiacraft Permaculture Design Core Curriculum Notes, 2017.):
Originalmente, Bill Mollison caracterizou o terceiro princípio como uma ética diferente, mas relacionada à atual: “Estabelecer Limites para População e Consumo” e “Gerar Excedentes e Reinvestir no Cuidado de Pessoas e Cuidados com a Terra”. Na virada do milênio, foi descrito como “Fair Share” (Partilha justa), resumindo a essência das articulações anteriores. A Escola Africana de Permacultura descreve brilhantemente isso como “Cuidados futuros”. Todos os seres vivos têm o mesmo valor inerente e o direito de viver uma vida saudável, incluindo as gerações vindouras. Gere uma abundância e compartilhe os recursos da Terra de forma generosa e equitativa com todas as coisas. Nossa missão é investir toda a inteligência de capital e boa vontade e trabalho para o Cuidado da Terra e o Cuidado de Pessoas.