No dia 17 de outubro de 2010 recebi um texto do cientísta político Lauro Mattei, da UFSC, comparando a campanha eleitoral de 1989 com a deste ano (Texto abaixo).

A grande surpresa é que hoje vi a notícia na TV do candidato José Serra, do PSDB, dizendo que a agressão que recebeu ontem no RJ foi muito bem planejada… sim, pelo PSDB para denegrir a campanha do PT, como aconteceu em 1989.

Não votei no PT no primeiro turno e estava bem decidido a não votar também neste segundo turno, mas o baixo nível das campanhas de ambos candidatos me deixou sem opção. O que mais tem me divertido nesta campanha são as contradições históricas, que tem sido motivo de piada. Por exemplo a clássica crítica do pessoal que apóia ao (moto-)Serra ao programa dito paternalista que é o Bolsa-família, que dá até R$200,00 por mês por família (NOOOOSSA!), e que tirou muita gente da pobreza levando um mínimo de dignidade pra quem realmente precisa.

Agora o palhaço do Serra quer dar 13. para os atendidos pelo Bolsa família além de aumentar seu valor. Aí sim que não estimulará o trabalho… é um apelão mesmo. O 13  salário é a recompensa ao trabalhados por um ano de trabalho, não faz sentido para bolsista, não acha?

Outra piada deste “atentado do PT ao Serra no RJ” foi que o candidato se disse atingido por um rolo de durex, e teve que ir à UTI fazer ressonância magnética, e ficou o dia seguinte sem atividades (ó coitadinho…). Na mesma notícia falaram que a jornalista foi atingida por uma pedra na cabeça, sangrou… e foi atendida no local. Serra riquinho faz tomografia por causa de rolo de durex (ou bolinha de papel?). Jornalista pobre é só atendida no local. Pobre se for esperar tomografia ainda fica 6 meses na fila do SUS. Sem comentários.

Re-lendo o texto lembro das apelações que faziam contra Lula: Collor chegou até a profanar que se o outro ganhasse mudaria a bandeira do Brasil colocando uma estrela vermelha no meio e uma foice e um martelo… rsrsrs

Leia o artigo do vidente Lauro Mattei, abaixo.

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O SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2010 E O RETORNO ÀS ELEIÇÕES DE 1989

LAURO MATTEI – Professor de Economia da UFSC. Reflexão feita em 16.10.2010

O segundo turno das eleições presidenciais de 2010, além de desvelar algumas das principais contradições da sociedade brasileira, revela também alguns métodos que obrigatoriamente nos levam a rever fases históricas anteriores, particularmente o processo eleitoral de 1989 e o seu turno decisivo.

Para as gerações que não viveram aquele momento é importante recordar os principais traços daquele processo eleitoral. Devido ao regime militar, o país voltou a escolher eleitoralmente um novo presidente após as últimas eleições realizadas em 1960, portanto lá se foram quase 30 anos sem se eleger presidentes da república.

No primeiro turno das eleições de 1989 quatro candidaturas representavam as facções da elite brasileira: Aureliano Chaves (agrupava membros do PP e PFL na época representados pela Arena); Guilherme Afif Domingos (representava os democratas cristãos e aliados); Collor de Mello (representava facções das oligarquias atrasadas regionais); e Ronaldo Caiado (representava a direita ultra conservadora e os interesses latifundiários). No campo democrático popular situavam-se as candidaturas de Brizola e Lula e no centro da arena política a candidatura de Mario Covas (PSDB). A disputa colocou Lula e Collor de Mello frente a frente no segundo turno.

É no segundo turno que a campanha eleitoral escancara seus métodos mais arcaicos, preconceituosos e fascistas. Embalada por um lindo clip de Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan e pelo apoio popular, a campanha de Lula se torna uma ameaça real ao poder político dominante. A partir daí a elite conservadora, sem qualquer prurido, usou de todos os métodos disponíveis, destacando-se os piores deles: espalhar o medo, o preconceito, a intolerância e o ódio na sociedade, procurando demonizar a pessoa do candidato Lula.

Vejamos alguns exemplos. Visando deter o avanço da candidatura do adversário e obter apoio da igreja católica, o programa de Collor de Mello levou ao ar durante dias declarações de uma ex-namorada de Lula que afirmava que ele queria ter feito o aborto, mas que ela não concordou (o famoso caso Lurian, filha assumida de Lula). Portanto, estava dada a senha para explorar politicamente uma questão religiosa que tanto divide opiniões na sociedade brasileira e que somente poderá ser decidida com um plebiscito, a exemplo do caso recente das armas: usar o tema do aborto para atingir politicamente o adversário.

Outro método muito utilizado foi espalhar o medo através de uma onda de boataria (como na época não existia internet esse trabalho acabou sendo feito pelas rádios e pequenos jornais de todo o país) que afirmava que se Lula fosse eleito as casas seriam tomadas, a poupança (que na época era uma pequena garantia para classe média e parte da classe popular com acesso à rede bancária devido à crise econômica) seria confiscada e, no limite, as crianças seriam raptadas pelo comunista Lula que não gostava de crianças. Além disso, espalhou-se pelo interior do Brasil que as propriedades dos agricultores seriam tiradas porque Lula queria fazer uma reforma agrária radical.

Além disso, procurou-se identificar a pessoa de Lula como sendo um terrorista. Para tanto, nada melhor do que o gesto de colocar a camiseta da campanha de Lula em alguns dos seqüestradores do empresário Abílio Diniz, durante o resgate efetuado pela polícia uma semana antes do pleito decisivo.

Também se buscou associar a figura de Lula à baderna e à desordem burguesa. No primeiro caso, forjou-se uma grande confusão na reta final das eleições em um comício do candidato adversário na cidade de Caxias do Sul (RS). Tempos depois se soube que os causadores da confusão tinham sido pagos pelos próprios organizadores do evento (campanha de Collor). Para mostrar a possível desordem que tomaria conta do país, associava-se Lula aos grandes movimentos grevistas do final dos anos setenta e início dos anos oitenta.

E para não me alongar mais nesses métodos arcaicos e fascistas, veio o seu golpe final protagonizado pela imprensa burguesa. Registre-se aqui a famosa manipulação do último debate entre os candidatos orquestrada pela Rede Globo de Televisão, com influência decisiva sobre o resultado das eleições.

Todos esses fatos – longe de representar um padrão civilizatório – eram justificados pelas elites, afinal o país precisava reaprender a conviver democraticamente após décadas de regime militar. Os fatos atuais, todavia, parecem demonstrar que uma parte da sociedade brasileira ainda não aprendeu e/ou não consegue conviver com a pluralidade de opiniões e com alguns preceitos básicos da democracia.

Além de resgatar os elementos do processo eleitoral de 1989 (aborto, terrorismo, baderna, preconceito e o medo), o processo eleitoral atual acrescenta alguns fatos novos.

A campanha do adversário da candidata situacionista explora ambos. Sobre o aborto é mais que visível para todos. Sobre terrorismo, a campanha de Serra resgate os preceitos do Presidente Bush Filho que entrou na cruzada do bem contra o mal, não importando quantas vidas ficassem pelo caminho. É por isso que Serra é o “homem do bem”. O tema da baderna aparece sorrateiramente na campanha tentando identificar o passado de luta pela democracia da candidata Dilma como guerrilheira. Neste aspecto, Serra é um péssimo exemplo, pois preferiu a sombra e água fresca das praias chilenas a permanecer no Brasil e lutar junto com os grupos militantes dos quais Dilma fazia parte. O preconceito – que não pode ser usado da mesma forma que foi usado contra Lula, afinal Dilma tem escolaridade superior também – aparece através de campanhas difamatórias procurando atingir o íntimo da candidata adversária. Finalmente, o medo aparece travestido na tentativa de mostrar que a candidata situacionista nunca exerceu nenhum cargo executivo e poderá delegar o poder para outras figuras políticas indigestas à burguesia nacional, enquanto que o candidato oposicionista já exerceu todos os cargos possíveis. Na verdade, esse argumento que agrupa o medo ao preconceito já foi tão bem explorado na campanha eleitoral de 2002 do próprio Serra, ou seja, vive-se hoje uma repetição dos métodos utilizados naquele momento anterior.

Mas há também fatos novos no turno eleitoral atual. O mais importante deles é o preconceito de gênero, pois a sociedade brasileira sempre foi e continua sendo fortemente machista. E é esse machismo que dá origem a campanha de ódio em relação à candidata oficial. Juntando-se isso ao preconceito de classe – afinal o governo atual está muito dedicado ao combate à pobreza – têm-se todos os ingredientes necessários para criar um clima de intolerância que ultimamente se espalha por todos os lugares, particularmente nas escolas fundamentais e básicas, onde até crianças estão sendo utilizadas para disseminar tal método.

Além disso, observa-se um comportamento distinto da mídia nas eleições atuais. Com seus colunistas e formadores de opinião, a mídia impressa e falada fortaleceu seu pacto com todas as demais facções da elite e, diferentemente das eleições de 1994, 1998 e 2002 – em que atuava fazendo denúncias – atualmente procura influir diretamente os resultados eleitorais, seja orquestrando uma campanha midiática contra o Presidente Lula e sua candidata tentando explorar suas tendências totalitárias e contrárias à livre imprensa, seja apoiando diretamente o candidato da oposição, além, obviamente, do contínuo uso dos métodos tradicionais de manipulação das informações.

Estes e muitos outros fatos elucidam a existência de um forte movimento político conservador que toma conta da vida política brasileira, que também pode ser observado em outros países. Talvez o caso mais eloqüente seja o “Tea Party”, movimento conservador extremista fortalecido recentemente nos EUA para se opor as políticas do presidente Obama, que claramente optam pelo apoio as classes sociais menos favorecidas.

Assim, é possível concluir que está em jogo neste momento no país o projeto de sociedade que se quer para o futuro. De um lado, mesmo com todos os desvios e lacunas, encontra-se um projeto democrático e popular que vem sendo construído há décadas e que o Governo Lula é apenas parte dele e, de outro, o projeto das elites que procuram perpetuar a história da sociedade brasileira, cuja marca não é o medo e a intolerância, mas a exclusão social, a pobreza e a miséria de grande parte da população.

Esse último projeto é representado pela candidatura Serra, por isso ela representa um retrocesso para todos os brasileiros.

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