Category: Páginas pessoais


Republico o texto abaixo, pois toda vez que vou postá-lo no facebook ele é censurado e eu não consigo, então resolvi copiar e colar no meu próprio blog para ter acesso quando preciso, pois nada deveria ser mais natural que o corpo humano.

O original tá aqui.

Nudez e vergonha do corpo

Arthur Virmond de Lacerda Neto

arthurlacerda@onda.com.br

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Por que o brasileiro encobre certas partes do seu corpo nas praias? Décadas atrás, havia traje de banho: as pessoas banhavam-se no mar vestidas, com trajes próprios, que, nos homens e nas mulheres, encobriam-lhes o peito e a metade superior das coxas. Depois, os homens descobriram o tórax e as mulheres adotaram o “maillot”.  A seguir, o calção de banho masculino reduziu-se a as mulheres adotaram o biquini, em que se lhes ocultam as mamas e o púbis. Surgiram, a seguir, a sunga, o “fio dental” (que seria melhor designado por fio de nádegas) e a porção superior do biquíni reduziu-se drasticamente. Hoje, é mínima a parcela do corpo humano que a moral convencional obriga a encobrir, nas praias.

As mamas e a genitália feminina são, ainda, ocultas por indumentos mínimos, se é que se pode chamá-los de roupas. Na verdade, não o são; não são trajes de banho. São a expressão da mentalidade do brasileiro, segundo a qual é moralmente necessário, por decência, por pudor, por “uma questão de ética” e de moralidade, que se velem, minimamente que seja, as mamas e a genitália (as nádegas acham-se totalmente expostas, há décadas). Da mesma forma, o homem deve encobrir as nádegas, o pênis e o escroto.

Qual a racionalidade da ocultação destas partes? Nenhuma. Assim como, dantes, nenhuma imoralidade havia na exposição do peito dos homens e na abdômen das mulheres, nenhuma indecência há em as mulheres andarem de mamas ao vento e os homens de pênis solto.

Nu no metrô.

O corpo é natural (ou não?); ele não é imoral (ou é?).  Nenhuma das suas partes deve ser motivo de vergonha (ou deve?); não há regiões do corpo mais decentes e outras menos (ou há?). “Naturalia non turpia”, diziam os antigos: o natural não envergonha, não deve envergonhar, não há porque envergonhar.Qual é a justificativa racional, defensável, coerente, de se obrigar moralmente ao velamento de certas partes do corpo? Nenhuma. Por que o pênis deve ser ocultado? Por que as mamas devem ser encobertas? Por nenhum motivo; apenas e exclusivamente por causa da rotina mental, do costume, da imitação do uso, da repetição, do modelo mental a que as pessoas são condicionadas, a que aderem e que se perpetua por inércia.

Ninguém pense que a exposição da genitália é excitante. Quem nunca viu, observa, na primeira vez, por curiosidade; na segunda, ainda observa, ainda por curiosidade; na terceira, já viu e, mais do mesmo, a repetição enfara e desaparece a curiosidade e, com ela, o olhar. Ademais, pode excitar mais o encobrimento do que a exposição: imagina-se o que se não vê; o que se vê pode decepcionar…

E se a exposição da totalidade do corpo fosse excitante? Que mal haveria em que o fosse? Há mal na libido, na sexualidade, na excitação, na atração física, no interesse? Acaso nada disto existe? Acaso devemos fingir que nada disto existe? E acaso a excitação limita-se às partes encobertas? Só há excitação mercê da observação do que se oculta ou o restante corpo também atrai? E porventura, nas praias, as pessoas sentem-se todas e sempre atraídas e  excitadas com a observação dos corpos quase nus?

A experiência demonstra que a visão do nu completo não é excitante após a segunda ou  a terceira vezes:  o que já se viu torna-se sensaborão, perde a graça. Os brasileiros pensam em contrário, acreditam que o nudismo excita por quase total falta de experiência de observação da nudez total.

Há, no Brasil, raras praias de nudismo, isoladas, quase como se fossem campos de concentração ou lazaretos, cujos freqüentadores devem ser segregados. No Brasil, apesar do calor (Rio de Janeiro, quarenta graus!), ai da mulher que andar de mamas ao vento no areal da praia! Toda a gente olhá-la-a, em regra por curiosidade (nunca viram cousa tal) e haverá policial que intervenha para coibir o atentado ao pudor, duplo índice do retrógrado da mentalidade do brasileiro, para quem o descobrimento das mamas é moralmente condenado e atentatório aos bons costumes. Para mim (brasileiro) é ridículo, é primário que os bons costumes envolvam, ainda, o encobrimento de certas partes do corpo; é idiota que se censurem as mulheres por exporem as suas mamas; é sem sentido que os homens devam ocultar o seu órgão de emissão da urina.

Que diferença há entre tapar-se o bico da mama das mulheres e não o fazer? Uma tira estreita de pano amarrada nas costas; outra tira, mais estreita, sobre os pentelhos,  resguardam a moral e a decência? A sua ausência é atentatória do pudor e dos bons costumes? Pense com seriedade, reflita por um minuto, fora da rotina mental a que está condicionado: que diferença faz? Por que tais trapinhos seriam sinônimos de pudor? Por que a sua ausência é despudorada? O mesmo em relação à genitália masculina. Em que há indecência, imoralidade, atentado ao pudor, ofensa na exposição do que é natural?

Por que nas praias de nudismo a decência é diferente, a pudicícia prescinde de tapa-sexos, o corpo exposto é decente? Em que difere a moralidade do nudista da do vestido? Em que o primeiro encara o corpo como  naturalidade e o segundo associa-o à sexualidade. Erotiza-0 não  quem o expõe, senão quem o oculta: quem o expõe, fá-lo desinibidamente, sem lhe atribuir conotação sensual; atribui-lhe sensualidade quem oculta certas partes, a que atribui papel lúbrico. O nudista não pensa só em sexo; o ocultador, sim. Para o nudista, o corpo é apenas o corpo; para o ocultador, certas das suas partes são motivo de vergonha, a sexualidade é motivo de vergonha.

No areal das praias do Rio de Janeiro, se uma mulher retirar o  tapa-sexo superior, haverá quem chame a polícia, para reprimi-la por ato de despudor, como ocorreu com uma estrangeira, acostumada, no seu país, à exposição das mamas e que se perplexou com a atitude do brasileiro, que admite a nudez integral no carnaval, masculina e feminina, que suporta temperaturas de quarenta graus e para quem os bons costumes dependem de se encobrir o bico do seio.

Na Grécia, os atletas praticavam ginástica nus (ginástica provém do grego “gimnadzein”, ou seja, treinar nu). Por 550 anos, eles disputaram as célebres olimpíadas em nudez total.

A estatuária grega e romana representava os imperadores, os generais, os deuses, nus, de pênis à mostra, sem encobrimento. O corpo não era motivo de vergonha para o romano nem para o grego; era-o para os bárbaros (orientais); tornou-se tal para os cristãos, que herdaram a mentalidade dos bárbaros e não a dos gregos e romanos.

 

Merkel nua.

Revista Sol Amigo, número 152, de 1962. A senhora da esquerda não é Angela Merkel.

Na Alemanha, pratica-se o nudismo integral há cerca de 120 anos. A nudez total integra os costumes alemães. Anda-se nu, em pelo, em público, nas cidades alemãs, sem que tal seja motivo de escândalo nem de atentado à moral e aos bons costumes. Para o alemão, o corpo não é motivo de vergonha nem a nudez é sexual: é natural. Na França, na Espanha, em Portugal (em parte), na Itália (em parte), na Alemanha, na Inglaterra, na Califórnia, na Grécia, na Croácia, na Dinamarca, na Finlândia, na Noruega, na Suécia, na Califórnia e alhures, as mulheres apresentam-se, nas praias, de mamas ao vento e ninguém se escandaliza com isto nem se põe a mirá-las como objetos sexuais, exceto os brasileiros, bisonhos em tais costumes de liberdade.

Na Europa, pratica-se o nudismo doméstico: todos nus, pai, mãe, filhos; 42% dos franceses estão habitualmente nus em casa. Na Espanha, há 230 praias de nudismo. Na Alemanha, há mais de uma centena de campos e praias de nudismo e lá é costumeiro receberem-se visitas nu. Há dezenas de campos de nudismo na Inglaterra e na França. Nos E.U.A.,  passa de 200 o número de centros de bem-estar (“resorts”) nudistas. Na Alemanha, há cerca de 95 anos , com aprovação governamental, e nos EUA, há pelo menos 65, há escolas nudistas: todos nus, inclusivamente os professores.

Na Universidade de Berkeley (Califórnia), é tradicional a corrida dos nus, em que estudantes correm pelos corredores dela, nus, rapazes e moças, alecremente. Em Roskilde (Dinamarca), realiza-se, desde 1971 festival musical, em que há uma corrida de nus; também em Aahrus, na Suécia, em festival popular, correm os nus. Em Meredith (Austrália), é tradicional a corrida dos nus, em festival a que acorrem centenas de pessoas, de crianças a velhos. No deserto do Nevada (E.U.A.) é tradicional o festival Queima do Homem, musical; por ser no deserto e quente, estão todos inteiramente pelados. Na Suécia, é tradicional uma competição musical, em um bosque, com assistência das pessoas em geral, de crianças a velhos, em que os músicos estão nus. Nas Filipinas, a fraternidade Alpha Pi Omega, presente na Universidade de Manilha, promove, anualmente, a corrida e passeio dos seus integrantes, nus. Em Londres, os estudantes das altas escolas promovem o banho no Tâmisa, nus. Na Califórnia, há décadas há escolas nudistas: todos nus, alunos e professores.

 

Em inúmeras cidades européias, norte-americanas, na do México, realiza-se a pedalada nua, em que os ciclistas pedalam, de dia, em público, nus. Em Londres, concentram-se, anualmente, centenas de ciclistas. É permitido fotografar e há centenas delas fotografias na rede de computadores: as pessoas não se escandalizam nem se pejam por estarem peladas em público nem por serem fotografadas nos seus pinto, bunda e mamas. Em algumas cidades do Brasil, há pedaladas nuas, mas uma delas, de SP, foi de noite, no escuro. Percebe a diferença ?

A nudez é escandalosa? É indecente? O pinto e as mamas são indecorosos? Não, definitivamente, não são. O brasileiro é que foi ensinado a pensar que o são.

Nestes países, quem quiser, é livre de andar nu na rua, no mercado, na praça, no metrô. E as pessoas fazem-no. Reconhece-se: 1- a ausência de obrigatoriedade de vestir-se; 2- a liberdade de nudez, como soberania sobre o próprio corpo.

Liberdade de nudez, de andar nu, de não se vestir; direito de não encobrir o próprio corpo. É liberdade que as populações européias reconhecem e praticam e que o brasileiro ainda sequer concebe.

“Mas o que é que uma criança vai pensar disto?”. É exclamação (com forma de interrogação e intuito de censura) típica de brasileiros, que perguntam o mesmo em relação às manifestações homoafetivas. Perante dois homens de mãos dadas, o brasileiro convencional exclama: “O que vai se dizer para uma criança, disto?” (diga-lhe que há homens que amam homens). Perante a possibilidade da nudez total na praia ou na cidade, o brasileiro convencional preocupar-se-á (sincera e também hipocritamente) com a formação das crianças e manifestará escândalo (digo hipocritamente porque a maioria dos pais jovens negligencia a formação dos seus filhos, papel que atribui à escola, como se o professor devesse fazer de pai dos filhos alheios. Outros são hipócritas porque usam a saúde moral das crianças como pretexto sob o qual dissimulam o seu moralismo).

Se uma criança, na praia, na cidade, no campo de nudismo, vir o pênis, o escroto, os pentenhos, as nádegas, a vagina, as mamas, terá visto o corpo como ele é  e terá aprendido que tudo isto integra os seres humanos (inclusivamente ele próprio) e que  nada disto merece, razoável nem justificadamente, ocultação como critério de moralidade.

“Se eu ficar nu, toda a gente vai me olhar”. Muita gente olhá-lo-a por curiosidade, por não estar acostumada com a nudez. A nudez individual, isolada, é atrativa; deixará de sê-lo se, a pouco e pouco, as pessoas exercerem a sua liberdade e tornar-se, gradualmente, costume a exposição, a começar pelas praias.

Na praias francesas, portuguesas (em parte), italianas (em parte), espanholas, gregas, alemãs, francesas, croatas, e mais na Austria, na Suécia, na Dinamarca, na Finlândia, na Noruega, na Inglaterra, na Califórnia, na cidade de Nova Iorque e em outras,  as mulheres andam de mamas ao vento e ninguém lhes liga. Liga-lhes o brasileiro que nunca viu tal: observa-as, por curiosidade, uma vez; outra vez, ainda com curiosidade. Da terceira por diante, já viu. Na quarta, é mais do mesmo. Assim é na Europa há décadas: o europeu abandonou o preconceito de que o tapa-sexo é indispensável à moralidade, aos bons costumes, à salvaguarda da família e dos mais valores da civilização ocidental, de deus e da evitação do pecado.

Peladada Floripa 2016

Neste momento, a mentalidade dos brasileiros, quanto à exposição do corpo, é demasiadamente conservadora, convencional, rotineira, mesmo arcaica. Já foi pior, quando o cristianismo, religião repressora, por excelência da sexualidade, preponderava com o seu ethos. Em décadas pretéritas inexistia o banho de mar: que imoralidade uma mulher expor o tornozelo. O tornozelo! Poderá piorar, na medida em que se propagarem as formas evangélicas de cristianismo, atualmente em avanço no Brasil. Manter-se-á estacionária enquanto não se despertar a atenção do público em relação a tal matéria: hostilizam a nudez as gerações supra-50, cinquentagenários, sexagenários, septuagenários, octogenários, gente formada em décadas passadas, sob modelos mentais de acentuada austeridade e repressão de costumes. Gente velha, de mentalidade arcaica. Também a hostilizam os religiosos de todas as idades, para quem toda nudez deve ser negada. Gente de mente fechada, submetida aos mandamentos bíblicos.

Peladada Floripa 2016. Fonte:  http://www.pedalafloripa.com/2016/03/peladada-floripa-2016.html

O preconceito contra a nudez, a vergonha do corpo, o automatismo do seu encobrimento constituem, propriamente, heranças católicas: padrões de pensamento, de comportamento, de reação emocional, em suma,  mentalidades e costumes que se incutiu no brasileiro mercê da pregação insistente, reiterada, efetuada pelo clero católico e, agora, pelo evangélico, com aplicação de dizeres da Bíblia.

Como sempre, a Bíblia justifica o arcaísmo de comportamentos e a negação das liberdades. Daí, a existência, em décadas pretéritas, do padrão católico de vestimenta feminina e o padrão atual de vestimenta evangélica, em Curitiba, pelo menos, em que as crentes (normalmente da classe C) usam cabelos compridos, presos na nuca, a que não aplicam shampoos nem condicionadores (tampouco se pintam); vestem camisa de mangas compridas ou blusa; saia de brim azul ou semelhante, até a altura dos joelhos; calçam sandálias. Vista uma mulher trajada por esta forma, como forma de identificação de pertencimento à sua classe social, identifica-se nela mulher evangélica.

Também os jesuítas concorreram para a formação da mentalidade anti-nudez. Nos seus manuais, no século XVIII ensinava-se, nos colégios, a trocar de camisa sem se olhar para o próprio sexo e de forma que nenhuma parte do corpo se expusesse, mesmo quando o aluno estivesse sozinho: a nudez torna-se vergonhosa mesmo perante o próprio indivíduo, independentemente de olhares alheios.

Em 1920, José Tomaz de Almeida, na revista Ave Maria, publicada em São Paulo, escrevia: “escravizar-se uma senhora digna ou uma donzela, à moda indecorsa, apresentando-se de pernas expostas, tão curtas usam as saias, de braços nus, com colo e costas à mostra, provocando maus sentimentos, excitando pecados, é contra a moral, é tudo que pode haver de anti-cristão, de condenável, de verdadeiro paganismo!”

            Adiante: “O corpo da mulher deve andar velado, pois ele é o templo vivo do santuário da divindade. O dernier cri do nu, como a desfaçates da impudica e leviana, avilta e deshonra a virtude nas suas exibições”.

            “O pudor, a modéstia e a timidez, são o encanto da mulher.”

            “Encompride as saias curtas, que exibem as pernas; levantae os decotes que expõem vosso corpo; baixai as mangas que descobrem os braços; sede discretas no trajar para não vos confundir com as heroínas do vício”.

            Por sua vez, o padre Ascânio da Cunha Brandão, na mesma revista Ave Maria, em 1936, verberava os costumes de liberdade dos alemães:

Aí está por exemplo a Alemanha, mandando buscar nas ruínas da Grécia pagã o fogo sagrado para a suas Olimpíadas e prestando à carne e aos deuses pagãos um culto que excede as raias da estupidez e do ridículo.

            Os deuses! A Grécia! As Olimpíadas! O nudismo! O atletismo!”

Adiante: “Não é condenável, por exemplo, este espetáculo de vergonha e despudor que nossas praias de banho? Este nudismo escandaloso está reclamando uma medida enérgica. É incrível!”.

            Em 1944, o mesmo padre, em outra colaboração com a revista, asseverava:  “Sim, a Igreja, ou melhor, a moral católica reprova como ocasião de pecado e de escândalo, o nudismo exagerado nas praias e o banho em comum na promiscuidade dos sexos”. Pretendia ele que as mulheres usassem maiô (peça de vestuário que lhes velava o tronco, das mamas à virilha) e que os homens e as mulheres freqüentassem o areal da praia separadamente, à maneira do regime de segregação da Africa do Sul, em que se isolavam os brancos dos negros.

O ethos católico de velamento do corpo perpetuou-se, como dado da formação dos costumes brasileiros; o que há de mais imbecil, mais retrógrado, mais tacanho, mais obtuso, mais burro da igreja católica inveterou-se nos costumes do brasileiro. As pessoas já não se lembram de pregações deste tipo, porém praticam os comportamentos correspondentes porque se lhes criou uma verdade e uma ética, que considero verdadeira porcaria mental e moral.

O exercício da nudez e o uso da vestimenta compreendem formas de liberdade. Na Alemanha e em outros países europeus, há a liberdade de vestir-se e a de não o fazer. Veste-se quem o quer fazer e anda nu quem entende fazê-lo: isto é liberdade.  Não significa que os alemães exibam-se preferencial ou corriqueiramente desnudos, porém a desnudez não os escandaliza. Não é que prevalece no Brasil.

A moralidade liga-se aos valores, ao senso de verdade, de solidariedade, de probidade, à disciplina pessoal, à generosidade, à paciência, à compreensão, à empatia, à perseverança, ao estudo, ao cultivo de si próprio, à aquisição da cultura, aos bons modos, à colaboração. A moralidade não se prende à repressão da sexualidade (até certo ponto) nem ao velamento de certas partes do corpo, tampouco à obediência à textos da Bíblia nem a padrões de comportamento baldos de sentido.

Há moralidade e há moralismo. Aquela envolve a liberdade pessoal e de costumes; este compreende, também, padrões de comportamento liberticidas e irracionais. É o caso, a segunda, do brasileiro, em relação à nudez. Oxalá evoluam eles do moralismo para a moralidade; da censura que praticam por rotina para a liberdade de que aprendam a usufruir.

Nos últimos meses, repetiram-se casos de nudez em público em Porto Alegre e em Curitiba. Houve, pelo menos um caso, também em Brasília e outro em Jaraguá do Sul, em meses recentes.

São sinais dos tempos. São indícios de que há modificações nas mentalidades e nos costumes: tendem, uns e outros, para menos vergonha do corpo, menos pudor, menos preconceitos artificiais, mais naturalidade, mais liberdade, mais cada um ocupar-se menos da vida e do corpo alheios.

O desnudamento já não mais isolado, porém multiplicado; não protestatário, porém sereno; não afrontoso, porém respeitoso; não exibicionista, porém discreto, revela uma nova realidade axiológica e comportamental. As pessoas começam a aceitar a nudez em público; porém raras ousaram, até o presente, praticá-la.

Os quatro ou cinco nus de Porto Alegre, os quatro ou cinco de Curitiba, não são delinqüentes nem exibicionistas sexuais; as suas manifestações, idênticas, não constituem coincidências extraordinárias. Salvo o caso de dois, doente psiquiátrico e de outro, drogadicto (segundo veicularam os meios de informação), os demais foram precursores, cujo desassombro levou-os à iniciativa de que outros compatriotas se abstém por timidez e, máxime, por temor da reação policial. Eles exprimiram sintoma de novas realidades na sociedade brasileira.

A nudez repugna a certos velhos, educados há cinquenta, sessenta e mais anos, em pretérito de valores e de mentalidades que se anacronizaram. Também repugna a certos religiosos, cuja gimnofobia resulta dos dogmas que professam. Nem os arcaísmos mentais nem os sectarismos devem balizar a ação policial (sobretudo, no caso da repulsa religiosa, à luz da laicidade do Estado brasileiro).

No âmbito da liberdade individual, velhos (e gente de todas as idades) e religiosos (crentes de quaisquer religiões) dispõem da faculdade de enfarpelarem-se com toda a austeridade. Não dispõem da autoridade de imporem-na a quem não compartilha das suas convicções nem é justo o Estado, ao legislar, ao judicar, ao atuar junto do cidadão (é o caso da polícia) pautar-se por critérios de minorias, que restringem, injustificavelmente, as liberdades, seja da maioria, seja de outras minorias.

É papel também do Estado observar o estado de coisas que se apresenta, reconhecer nele tendências sociais, respeitar os cidadãos, adaptar-se à evolução da sociedade brasileira e revogar o infeliz artigo 233 do Código Penal (ato obsceno).

Na França, em 1994, revogou-se o crime de atentado ao pudor, análogo ao deste artigo e substituiu-se pelo de exibição sexual.

É diferente a nudez pura e simples, da exibição sexual. Estar nu não equivale a exibir-se eroticamente, mesmo porque tal exibição é suscetível de ocorrer em vestidos. Presumo que em outros países europeus o tratamento legal da questão seja igual ou análogo.

Enquanto o nudista não cometer importunação, enquanto limitar-se a estar nu como se estivesse trajado, é indiferente, é irrelevante a sua nudez; nestas condições, ela diz respeito ao próprio e não a outrem, e não à polícia nem ao Código Penal.

Atualize-se, a lei, quanto aos costumes. Entenda ela a evolução dos comportamentos. Compreenda o anseio por liberdade. Enxergue inocência onde ela existe.

Não tolha, o Código Penal, a liberdade dos cidadãos. Não veicule valores de que a sociedade se vai dissociando. Não confunda nudez natural com impudor. Não imagine crime nem maldade onde existe inocência em face da lei e das intenções. Não reprima o que a lei não proíbe.

Proteja o Código Penal o cidadão pacífico, no exercício legítimo das suas liberdades e dos seus direitos; defenda-nos de quem nos mata, nos estupra, nos rouba, nos ludibria, de quem nos causa, realmente, mal. Não reprima os nudistas, que, estes, são cidadãos de bem, como quaisquer outros vestidos.

Por todos estes motivos, considero oportuno e bem-vindo:

1-revogar-se o artigo 233 do Código Penal,

2-autorizar-se o desnudamento das mamas em todas as praias do Brasil (monoquíni, vulgo “topless”),

3-autorizar-se a nudez integral em todas as praias do Brasil ou, pelo menos, facilitar-se a multiplicação de praias de nudismo ou a delimitação de áreas nudistas nas praias têxteis (de gente semi-vestida).

Agora,preste muita atenção nisto: em Direito, o que não está proibido, está permitido. Não há, no Direito brasileiro, nenhuma regra que proíba a nudez em público; logo, ela é permitida. Sim, é permitido estar nu em público no Brasil. Há o artigo 233 do Código Penal, que pune o crime de ato obsceno. Obsceno é o que envolve sexualidade afrontosa, conforme os padrões sociais predominantes. Estar nu não é ato, é condição; estar nu não é obscenidade, é naturalidade. A polícia não deve e não pode reprimir quem anda nu em público. Quando o faz, ela atua como agente de mentalidade arcaica, veicula valores sem sentido, reprime indevidamente o cidadão na sua liberdade e pratica, ela, polícia, o crime de constrangimento ilegal, ou seja, obriga a cidadão a fazer o que a lei não o obriga (encobrir-se). Foi o que eu disse, por escrito, aos comandantes da PM do PR e da Brigada Militar do RS.

Demais, o que seja obsceno varia com as mentalidades. O Código Penal brasileiro data de 1940; estamos em 2016: os critérios não podem ser os mesmos. A polícia não pode reprimir, por alegada obscenidade, em 2016, como se estivessemos em 1940.

Na Inglaterra, Alexandre Sutherland Neill (1883-1973) criou a escola Summerhill, em que os próprios alunos criavam as regras porque nela se regiam (auto-regulação). Laico, o seu ensino era destituído de inculcação religiosa (pelo que os seus  alunos desenvolviam-se fora do conceito de pecado e do sentimento de culpa que ele origina) e fora da repressão da masturbação e da nudez, pelo que os seus alunos adquiriam a saúde psicológica de que tão freqüentemente eram privadas as crianças e os jovens educados sob a censura da sexualidade, em geral, e sob a obrigação de ocultarem o seu corpo.

A nudez, observava Neill, jamais deveria ser desencorajada. O bebê deveria ver seus pais despidos, desde o princípio”. Em Summerhill,  prevalecia “atitude absolutamente natural” (Liberdade sem medo, p. 213. São Paulo, Ibrasa, 1977), acerca da nudez, em resultado do que, os seus alunos não desenvolviam curiosidade mórbida por corpos (femininos nem masculinos), não se tornavam mixoscopistas, não se envergonhavam diante do desnudamento alheio, não  se vexavam por serem vistos nus por outrem.

Um casal, pais de filhos crianças, adotaram, com hábito, o desnudamento doméstico, ao que A. Neill observou à mãe: “A nudez no lar  é excelente e natural. Seus  filhos, mais tarde, evitarão muito o sexo doentio.  É improvável que um deles se torne um `voyeur´, pois que terão visto tudo quanto há para ver” (Liberdade sem excesso, p. 64. São Paulo, Ibrasa, 1976).

É hora de os brasileiros perceberem a falta de sentido da mentalidade anti-corpo; a ausência de inerência entre nudez e sexualidade, entre sexualidade e culpa, entre nudez e vergonha do corpo, entre velamento das mamas e do pênis e moralidade. É altura de os brasileiros descobrirem o direito à nudez natural, de manifestarem-se a respeito, por palavras e gestos.

A nudez natural não implica a exposição de corpos belos, esbeltos, de homens musculosos, de mulheres vistosas; da exibição de padrões de beleza nem de pênis avantajados, compridos, grandes. Assim como não é questão de sexualidade, tampouco o é de consagrar padrões de beleza nem de ostentar pênis grandes. Na nudez natural, é indiferente o tamanho do pinto e a beleza do corpo – dimensão fálica e padrão de beleza não são valores do nudismo; são-no da sociedade machista, de homens de mentalidade tosca, que identificam tamanho de pinto com masculinidade, e da sociedade fútil, que julga as pessoas pelas aparências. No nudismo não é assim.

Se gostou, divulgue esta idéia. Vamos agitar, tomar iniciativas, tomar atitudes, promover manifestações.

(Quanto às fotografias, não é questão de se preferir homens ou mulheres vestidos ou nus ou semi-nus; não é questão de gênero nem de sexualidade.
É este, precisamente, o ponto: não é questão de sexualidade (homossexualidade nem heterossexualidade) e sim de naturalidade. Homens e mulheres, mulheres e homens, nus, são igualmente naturais; não se trata da atração erótica e sim, precisamente, de retirar a erotização do nu: eis a grande lição da Alemanha nua.).

(Em ginásios de musculação de Curitiba, os homens despem-se nos vestiários, porém naõ de todo: exceto a cueca, com que ingressam na cabine do chuveiro. Os chuveiros constituem compartimentos em que cada indivíduo acha-se isolado dos demais. Ninguém vê ninguém no banho. Os homens retiram-se da cabine do chuveiro de cueca: não querem expor a sua genitália. Será, talvez, porque se masturbam durante o banho e desejam ocultar a tumescência do seu pênis, efeito para o qual a cueca é providencial. Provavelmente, contudo, não é por isto que entram na cabine de cueca e dela se retiram, também de cueca, e sim porque prevalece, em Curitiba, a pudibundaria, a necessidade de os homens ocultarem o seu corpo, a vergonha da genitália, a genitália como parte indecente. No vestiário masculino, entre homens, os homens ocultam a genitália uns dos outros. Parece convento. E tal se passa em , em Curitiba, onde é comum a gabolice de é cidade “européia”. “Européia” com mentalidade e usos de terceiro mundo. Nos E.U.A. e alhures, os chuveiros são abertos, destituídos de paredes entre os seus usuários que, assim  vêem a nudez do seu vizinho, com naturalidade, sem a introdução, mesmo inconsciente, de que certas partes do corpo devem ser ocultadas. Menos mentalidade bíblica e mais naturalidade. Curitibano atrasado).

Vide, da minha autoria, “Mamas ao vento e pênis à mostra”, “A nudez é inocente”, “A favor da nudez” (em que trato, também do artigo 233 do Código Penal), “Envergonhar-se do próprio corpo é obrigatório!? Prédica nudista” (sermão de pregador nudista), todos neste sítio. Procure em “Nudez.”.

Minha carta ao comandante da Brigada Militar do RS, em prol dos nudistas que andaram em público em Porto Alegre (esta carta é igual à que enviei ao comandante da Polícia Militar do PR): aqui.

Minha carta à Ministra dos Direitos Humanos pela revogação do artigo 233 do Código Penal e em favor da liberdade de nudez aqui.

“A favor da nudez”:  https://arthurlacerda.wordpress.com/2014/11/18/a-favor-da-nudez-2/

Esse post foi publicado em Nudez. Naturismo..

 

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inventando palavras

como tenho esta mania de inventar palavras para tudo, seja proposital ou erroneamente tentando dizer outra coisa, aqui vão algumas dessas pérolas:

ESPADAFÚRDICA = Espada + Estapafúrdica, palavras ou ações absurdas ditas ou realizadas com intenção de cortar as palavras ou ações desagradáveis de outras pessoas.

EM BREVE +